sábado, 21 de julho de 2018

Um estranho na praça

Anoiteceu na praça. O bairro adquiriu um ar decadente. O medo da violência, a grande obra do BRT já há um tempo comprometia o comércio. O local ganha um caráter de passagem, mas nada é capaz de conter a diversidade cultural que emana do povo.
Quatro mesas-tabuleiro acompanhadas de quatro bancos cada. Duas delas ocupadas quando um estranho chegou. Vestia calça jeans, uma camisa de banda de rock e sentou-se ocupando sozinho a terceira mesa. Dedicou-se às conversas no whatsapp, que se seguiam de risadas maliciosas. Seguramente o assunto era muito interessante, ao passo que parecia esperar alguém, olhando sempre em volta, ou quem sabe até esperando um tempo longínquo voltasse, onde ele não seria tão avesso aquele local.
Na mesa ao lado, um grupo de jovens ria e ouvia música, algo próximo a um charme da república do Norte. Em frente um casal discutia acompanhado de um amigo, que se colocava na posição de árbitro da briga. Ele pediu dinheiro para o Guaracamp, ela não deu, mas os ânimos pareciam voltar ao normal quando uma senhora, militante de sua crença gritava em tom ameaçador:
- O Senhor.... - o resto não era compreensível. O rapaz, já abraçado à namorada respondeu com uma gargalhada de pombagira. A velha se empombou novamente, enfurecida. Debochado, simplesmente repetiu a gargalhada.
Nesse momento a outra mesa se dobrava em risadas, e a namorada se largava dele com medo das consequências mágicas. O estranho não conseguiu conter o riso, ainda que parecesse querer fazê-lo. Mas todos comungaram o momento, e até mesmo ele se sentiu parte.
Uma bola rolou, e ele se levantou, entendido do assunto, para tocar de volta. Parecia orgulhoso, o passe executado com perfeição, de chapa de pé. O tempo não passou tanto assim, afinal. De repente mais uma mensagem, um sorriso e foi-se! 
Por vezes a distância não é tão grande, a depender do caminho que se faz.