segunda-feira, 16 de maio de 2016

Como reagir ao golpe?

Esta pergunta não é retórica. Um sujeito não poderia fornecer a luz sobre este tema sem pôr à prova do debate com todos que estão pensando sobre o assunto. O que falta talvez seja o debate, não sobre o mérito do processo, se é golpe ou não é, este debate ocorre com posições bastante definidas; o que falta é debater o que fazer diante de uma situação na qual o golpe está praticamente consumado. Sim, é muito difícil que os senadores voltem atrás na decisão uma vez que o PMDB está empoderado do Executivo para fazer suas manobras, o que não significa pregar a resignação, mas sim a ideia de que teremos um longo período de resistência, e devemos fazê-la com sobriedade.
Devo levantar alguns aspectos, ainda que corra o risco da arbitrariedade. A articulação do golpe é também um longo processo de unificação das representações políticas e sociais burguesas e, assim dizendo, demarco o nítido caráter de classe deste golpe que, no período de crise econômica, se coloca como alternativa através da supressão de direitos sociais. É preciso notar que a Rede Globo cumpre papel central nesta unificação, já que não apenas agora se coloca como instrumento de disseminação de difamações à esquerda no governo e foro privilegiado de disputa de hegemonia da sociedade. Inúmeros foram os "escândalos" e campanhas em torno do programa neoliberal. Só agora consegue romper o pacto de conciliação de classes estabelecido pelo PT desde 2003.
A classe trabalhadora, por outro lado, apenas parece começar a se preparar para a disputa de hegemonia. A luta contra o golpe é constituída por uma vanguarda de partidos políticos, movimentos sociais e intelectuais progressistas, muito a partir de suas burocracias, conseguindo então um apoio popular mais espesso. Uma parcela grande da classe trabalhadora, sobretudo aquela organizada no mercado de trabalho informal, nas lutas por moradia, distantes da sindicalização apenas começa a compreender que o golpe não se trata de uma "disputa entre políticos", ou de uma "disputa entre ladrões", no entanto, a tendência é que isto venha a se tornar mais evidente na iminência da perda de direitos sociais e no empobrecimento da população com as medidas de arrocho salarial.
Até aqui as palavras de ordem como "Não vai ter golpe!" e "Em defesa dos direitos e da democracia!" se mostraram acertadas. Em torno delas se organizaram atos culturais massivos, com um caráter claro de demarcação política. No momento atual se faz necessário avançar na linha política e nas ações: quem diz estar tomando um golpe político não pode aceitá-lo de forma resignada. Já se somam ações de desobediência civil, escrachos e ações neste sentido, uma vez que a legalidade está abalada no país. É preciso que a estas ações se somem movimentos massivos e de disputa de hegemonia. É preciso que a esta revolta se dê uma direção política.
Em um dos atos realizados no Rio de Janeiro, convocado pelos artistas, alguns temas chamaram a atenção. Após a fala de Tico Santa Cruz, a palavra de ordem "O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!" foi a entoada com mais força, talvez demonstrando que este canal materialize toda a repressão a segmentos sociais diversos. Chamaram a atenção, portanto, o racismo e a repressão policial nas favelas, a demanda pela demarcação das terras indígenas, (temas estes que apontavam contradições dos programas de desenvolvimento do próprio governo petista) e o tema do combate ao machismo. Talvez o avanço em outros temas como o combate à fome, o aumento do salário mínimo, tenham permitido àqueles ocupar o centro da pauta política. A este caldo cultural deve ser dado uma direção política. Sobretudo no que tange ao tema da democratização dos meios de comunicação, devemos lhe atribuir a centralidade que talvez já exista no imaginário das manifestações. Ações concretas devem ser tomadas, e a Frente Brasil Popular deveria se inclinar neste sentido.