terça-feira, 3 de abril de 2018

Esperança

Uma multidão de vermelho habitava a praça em uma segunda-feira à noite. Um vermelho estrelado que tremulava, já não tão brilhante quanto foi um dia. Alguns conseguiram entrar, outros ficaram ao lado de fora assistindo pelo telão. Toda aquela reunião se tratava de nos alimentar de alguma esperança, uma esperança agora bandida, condenada sem provas, jogada no chão, pisoteada.
Entre os reunidos as mais diferentes emoções: ao lado direito, um velho fiel ao seu antigo dever; ao lado esquerdo jovens, como a pedir passagem, estavam revoltados por não conseguirem entrar. Até que entraram, afinal, e quero crer que mesmo assim mantiveram sua revolta pelos que ficaram. Figurava entre as caricaturas um estranho, que não parecia saber muito bem o que fazia ali, já que não era tão entusiasta das estrelas, como parecia ser a regra.
Lá dentro começaram as falas. A multidão delirante respondia às colocações muito bem articuladas como o paciente em estado crítico ao receber uma injeção de adrenalina! O que vinha do púlpito era, sem dúvida, bem recebido. Até que o velho adversário tomou a palavra, e de tão velho estava meio esquecido. Mas falou em unidade após apresentar suas diferenças, deixando a todos em êxtase. O fiel velho celebrou sua fala, e os que estavam consigo o acompanharam; alguns riam-se, enquanto o estranho estava pasmo com a identificação que tinha com aquele que sempre combateu. Sem admiti-lo publicamente, parecia mandar mensagem para aquela com quem poderia se confidenciar. Apesar da expressão serena, estava abalado.
Muitas falas estreladas se seguiram até que este estranho pudesse estar livre para se identificar com alguém. Lá dentro cantavam o canto que ele aguardava, e então lançou sua voz sozinho, se revelando para os que assistiam no telão. Cantou convicto, porém só uma vez, percebendo que ainda mais estranho tinha se tornado. Durante a fala que tanto aguardava, esmoreceu, ao passo que a massa estrelada mais uma vez não o acompanhava, congratulando-a, coisa que ele não teve vontade de fazer. Foi o segundo abalo.
E assim seguiu o ato até que o momento mais esperado veio. Ele, o condenado, que ao falar cala a todos, não por um gesto de autoridade, mas pela serenidade de sua voz que traz um tom de sabedoria. Esta sabedoria animou a toda essa multidão e mais outras por todos estes anos. Para alguns, precisaremos buscar outra, já que o cruel destino não permite a um homem das multidões ser tão sábio. Mas falou bem, e bem melhor que das últimas vezes. Quase como em tom de despedida, deixando a todos satisfeitos e emocionados em direção às suas casas e bares, à sua tortuosa rotina de procurar desesperadamente uma esperança.