quinta-feira, 16 de novembro de 2017

284, até quando?

Resultado de imagem para ônibus lotado

Nenhum gringo ouviu, mas eu sim: Praça Seca Station. A criança na minha frente não se decidia pelo acento, e atrapalhava a luta pelo conforto diário. Sinto uma cotovelada no rim, seguida da ofensa:
- Porra, seus lerdos!
-Tem criança, aqui! - Gritou a mãe.
- Isso aí não vai resolver sua vida não, heim! - Tentei, mais triste que revoltado, acredito.
Calou-se para não ficar ainda pior, mas conseguiu o acento amarelinho. Levantaria para o velhinho? Talvez. 
Cinco horas da manhã. Nossa linha amiga, a antiga 284, passa pela Estação Primeira de Mangueira. E aí o contraste: uma coroa e uma jovem arrumadas para o trabalho passam por uma roleta. As adolescentes voltando do baile pulam a outra. Começa o funk.
- Cheia de marra porque pulou a roleta!- Resmungou a coroa.
Uma discussão começa. Xingamentos e ameaças são trocadas. A jovem trabalhadora, contida pela coroa, discute com uma das adolescentes, que por sua vez é segurada pela irmã. Quem é mais do morro? Era um tópico. Quase foram às vias de fato, mas as adolescentes desceram:
- Sua piranha! - Gritou a jovem 
- É do morro mas é sem educação! - Completou a coroa.
Botafogo Station, chegou o metrô. 
- Corre pra pegar o lugar, Átila! - Disse o pai ao filho.
Conseguiu, sabido que é, mas um jovem que disputava o seu lugar acabou sentando em cima de sua perna. Machucou um pouco, mas não muito. O pai arrependido, o jovem envergonhado. Mas atingiu o seu objetivo, voltou do trabalho sentado e jogando Street Fighter no celular. E não haveria pedido de desculpas melhor, pois revezou as lutas com o garoto que machucou. 
Vida que segue. "A luta pela sobrevivência", dirão alguns. E o patrão? Ninguém sabe, ninguém viu. Será que usa o transporte público?