terça-feira, 23 de agosto de 2016

Neymar 100% Jesus!





Não sei você, mas eu tive uma surpresa na comemoração do ouro olímpico da seleção brasileira de futebol masculino: existia alguém maior que Neymar! Sim, estava lá! De repente você poderia argumentar que estava lá apenas para mais uma jogada de marketing do "menino Neymar", mas Ele estava presente, e é isso o que importa!
Seu pensamento agora certamente se transferiu para a preocupação com o estado mental deste blogueiro, mas explico a ironia. Minha alegria em saber que ao menos Jesus está acima de Neymar não é fruto de mero deboche; no entanto, tampouco se deve a qualquer recente conversão religiosa. É que, à primeira vista, ninguém poderia estar acima Dele (Neymar, dessa vez), Deus de si próprio, e maior candidato a Deus dos brasileiros, cujo maior cabo eleitoral não poderia ser outro senão aquele de sobrenome Bueno. 
Pois bem, mas diz a faixa que Neymar é 100% Jesus! A surpresa é simples: Neymar se jogou na torcida, não porque comemorava com ela o título, mas porque Ele prometeu a alguém que comemoraria com ele (ela) em caso de vitória; Neymar acha que Ele deve ir a noitadas e não deve nenhuma satisfação ao povo como atleta que representa o Seu país; Neymar acha que o povo não deve receber nenhuma mensagem Sua, já que O criticou; por fim, Neymar acha que todos devem engoli-lo. Tudo parecia ser sobre Neymar, e de repente 100% Jesus! Que relação curiosa tem Neymar com seu Deus!
Estamos diante de um "Deus" bastante racional. A faixa se justifica como um ato de gratidão, ou seja, o vencedor que sabe agradecer ao seu criador pelas conquistas. Não consigo imaginar Neymar no auge de seu hedonismo indo à missa ou a um culto no domingo, se prestando à experiência coletiva de solidariedade, familiar a tantos cristãos. Neste caso, a faixa simboliza mais a prorrogação de seu contrato com Deus, assim como ele tem com o Barcelona, ou com seu pai-empresário. O jogador está de acordo com as tendências, eu diria, já apontadas pelo alemão Max Webber, e a fé se torna uma relação individual sua com seu Deus-interlocutor. 
É importante notar que o que se passa na cabeça do menino-deus-Neymar me interessa muito pouco. Interessa mais como elas reverberam e se tornam assunto nacional. As reações do jogador causaram estranhamento à grande parte da população, basta ver o constrangimento social com o comportamento do atleta, no entanto, entre amigos, não foram raros os comentários como "mas ele com 24 anos já conquistou todos os títulos menos a Copa do Mundo", "mas ele é um craque!", "mas...", "mas...", como se estes tópicos estivessem em questão em algum momento. O que está em questão é se subtrair o feito histórico coletivo que foi a conquista do ouro olímpico na categoria aos feitos de um falso herói, e, pior, como se isso justificasse as atitudes tomadas. Quem salienta os títulos de Neymar ainda no início da carreira, certamente se vê agindo como ele, se em seu lugar estivesse. Podemos estar vendo florescer entre os mais jovens o mérito enquanto valor, sem dúvida processo fomentado pela imprensa. Vimos um time mais fraco conseguir igualar suas ações com a forte Alemanha, 5 jogadores executarem cobranças de pênaltis com perfeição, o goleiro defender uma cobrança alemã, mas o que ficará será Neymar... que é 100% Jesus, claro!