Este ônibus, que há mais de dez anos teve um novo batismo e passou a ser chamado de 371, já me levou a muitos lugares, geográficos e simbólicos.Levava-me prioritariamente à Razão e ao dever, a faculdade de Ciências Sociais no Centro da Cidade, à militância política, mas também à magia do carnaval, da roda de samba, e da Lapa. Em ambos os casos, se o destino era planejado, o caminho nunca era o mesmo: enquanto eu me transportava com rumo certo, os desvios do trajeto pareciam até mais importantes que o objetivo final, já que as experiências vividas e os aprendizados eram colhidos nas curvas e esquinas.
No entanto, a vida me levou a outros caminhos, recentemente. Há muito já não é o meu principal ônibus. Com isso, a vida também tem se apresentado mais plana, como uma fotografia, e não como um longa-metragem.
No entanto, ontem foi dia de comemorar o aniversário de Willian, o grande rouxinol da Giro 70 - banda de rock que faço parte atualmente -, no Arco do Teles! Convencido por terceiros da impossibilidade de se andar no Centro à noite nos dias atuais, pedi um carro no aplicativo, traindo então o 284 e, de certa forma, a mim mesmo. Presenciei realmente um cenário decadente, que muito diz sobre a cidade do Rio de Janeiro: ruas escuras, pouco movimento, pouca esperança.
No Arco do Teles, a pedida era um festival de metal. A banda tocou 5 músicas do Deep Purple, fato que seria suficiente para me arrancar alguns sorrisos. O assunto era o carnaval que se aproximava e o ciclo de nostalgia se alimentou. Falei do Padeiro, meu antigo alter-ego carnavalesco, que me levou a pechinchar cervejas com todos os camelôs dos mais diversos blocos, dentre outras abordagens.
Depois fomos à Lapa, bebemos na Gomes Freire, fomos até os Arcos e voltamos. Estava cheia dessa vez, mas sem nenhum conhecido. Um sinal dos tempos, pensei. O grupo se separou, um casal brigou, e eu estava sozinho de repente - desfecho tão típico de uma noite na Lapa. Cinicamente o aplicativo tornou-se impossível e, mais uma vez, eu precisaria esperar até de manhã.
Uma moça resmungava sozinha na mesa ao lado. Perguntei o que houve, e de repente ela estava me contando sobre a política de Caxias, as transformações no espaço em Xerém, onde foi criada. Tão repentinamente quanto isso, recebi um "tapinha" nas costas. Era o gringo, possivelmente o motivo dos resmungos anteriores. Fuzilou-me com um olhar de raiva e insegurança, puxou a moça pelo braço e ela o chamou de amor. Despediu-se de mim pelo curto espaço de tempo que lhe foi permitido.
Aguardei mais uma hora, e quando estava amanhecendo decidi contrariar os avisos: desci a Gomes Freire, virei na Rua do Senado, passei por trás do bombeiro e me posicionei à espera dele, o "284", em frente ao Souza Aguiar. Conversei no ponto, olhei as cotias do Campo do Santana, e o ônibus chegou.
Logo na Central, uma moça pediu licença e sentou-se ao meu lado. Olhou-me com curiosidade, e eu seguiria normalmente, como se só o destino importasse. Mas passou o antigo prédio da Estácio e eu dividi com ela a minha curiosidade militante se a faculdade ainda funcionava ali. Disse não saber, e começamos a conversar sobre o Centro da Cidade e suas mudanças ao longo dos últimos anos. Dei-me conta que ela também estava voltando, de alguma festa no Centro.
Falamos sobre a Estação Primeira, sobre o carnaval e os blocos. Falamos sobre o casal da Lapa e sua briga, e sobre os casais em geral. Falamos sobre o "284" e obstáculos da viagem, ao que eu ponderei sobre as aventuras, oferecendo a ela uma antiga crônica deste mesmo blog, ao que ela respondeu com um lindo sorriso - que por sinal, não me foi negado em toda a viagem.
Eu, falho como de praxe, não perguntei seu nome, não insisti em um contato posterior. Ela se despediu na "Catedral da Fé", e eu compartilhei o desejo de revê-la nos blocos, ao que ela sorriu novamente.
A volta para casa seguiu mais reflexiva. Eu estava satisfeito, o carnaval está chegando e o Padeiro esteve de volta por uma noite. E mais uma vez o 284 me levou ao meu destino, mas o mais importante aconteceu nas curvas.
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