domingo, 17 de abril de 2011

O conceito de "Cultura"

A constante temática da “defesa da cultura” na luta antiimperialista é a prova, na visão de Sahlins, da atualidade do conceito de “cultura”. Para ele, foi a Antropologia a responsável pela ampliação de seu sentido, antes atrelado à noção de detenção de conhecimento (“homem culto”).[1]
A cultura, entendida como esquemas interiorizados que organizam a percepção e a ação das pessoas e garantem sua comunicação em um espaço social, evidencia que o desenvolvimento de uma sociedade se dá a partir dela própria. Isso contrastaria o papel da Antropologia de Herder com os cientistas políticos iluministas. Estes, defensores dos valores individuais, apostavam na abstração de um modelo civilizacional onde a noção de “indivíduo” ganharia centralidade.
Isto viria a constituir o arcabouço ideológico da exploração das colônias. A dominação das metrópoles estaria portanto justificada por levar as diferentes sociedades à civilização. A Antropologia, ao contrário, com o argumento de que o homem é um ser social e se organiza em diversas culturas, se opunha a essa dominação.
Diferentemente da “civilização”, que podia ser transferida aos outros — mediante, por exemplo, os gestos benevolentes do imperialismo —, a “cultura” é aquilo que caracterizava de modo singular um determinado
povo — ao contrário, por exemplo, das maneiras superficialmente afrancesadas da aristocracia prussiana. Há variedades, não graus, de cultura.
Por caracterizar formas específicas de vida, o conceito de cultura é intrinsecamente plural, em contraste com a noção de um progresso universal da razão que culminaria na “civilização” européia ocidental.
 
Entender isto, pode nos atentar que os ditos valores universais do Iluminismo e da Revolução Francesa, (que inclusive na atualidade são elementos normativos da civilização moderna, através do liberalismo político e econômico), nada tem, desde suas origens, de universal. E o entendimento do que é cultura, do que representa a defesa das culturas "nativas", pode nos levar a uma nova perspectiva do que deve ser a emancipação humana. 

[1] SAHLINS, Marshall. “O Pessimismo Sentimental e a Experiência Etnográfica”.

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