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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Se vocês querem meu corpo, nem se eu estiver morto, nem assim.*


Por Karine Belarmino


Raiva e angústia são sentimentos que se tornaram constantes pra mim de uns tempos pra cá. E, honestamente, queria que tivessem se tornado pra mais pessoas. Estou cansada de me sentir derrotada antes mesmo de tentar qualquer coisa, mas acredito que seria muita inocência achar que será diferente. Sou graduanda de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro e tinha sim a esperança de fazer minha carreira na Academia. Tinha certeza de que, estudando numa universidade de renome como a UFRJ, conseguiria competir por postos em igualdades de condições com meus pares ao longo da minha vida acadêmica. Entretanto, desde que lá ingressei, vejo tudo, menos igualdade de condições. E não digo apenas a respeito da diferença na formação educacional entre os estudantes, mas também do nome que carregam e dos contatos que cada um tem.
                Apesar do discurso em defesa do universalismo de procedimentos presente na fala da maioria dos professores com quem já tive aula, assisto frequentemente ações e práticas desses mesmos professores que são nitidamente caracterizadas como patrimonialistas. No entanto, quando me queixo com colegas a respeito disso (e falo disso com qualquer um porque acredito que é o tipo de coisa que afeta todo mundo que ali está) me deparo com argumentos conformistas que, a meu ver, saem em defesa dessas práticas, no sentido de que “é, tem razão... é uma m*rda, mas fazer o quê? É assim, né?! O que a gente pode fazer é, quando estivermos lá, mudarmos as coisas.”* Como vamos mudar algo, se compactuamos em um primeiro momento? E a hipocrisia vira um círculo vicioso...
                 Me chocam as pessoas que, indignadas, se referem ao período em que a escolha dos professores das universidades públicas era dada por nomeações e que, entretanto, legitimam a roubalheira que ocorre nos concursos atuais com o argumento citado acima. O que de fato me deixa preocupada é a possibilidade desse argumento ser verdadeiro, ou seja, será que eu terei que me vender pra tentar mudar alguma coisa? Espero que não.
                Meu nome não está na boca deles. Meus pais para eles são desconhecidos. Não me interesso sexualmente por ninguém que possa me “ajudar” (a me tornar um deles). Não me interesso nem em virar amiga deles*. O meu futuro acadêmico, provavelmente, pertence à marginalização, já que não vejo sinais de descontentamento ou preocupação com tais práticas.
E o que eu faço com meu esforço, meu mérito? Estou procurando o que fazer. Posso tentar seguir minha peregrinação rumo ao reconhecimento acadêmico, apesar dos pesares. Posso usá-lo para satisfazer meu ego em momentos de baixa autoestima. Posso jogar tudo fora e tentar outra coisa, outro sonho (mas qual?). Contudo, o que eu queria mesmo era uma opção que me permitisse seguir em frente nas minhas aspirações sem que precisasse me misturar (porque, sabe como é, né?! “Quem anda com porco farelo come”.), sem me tornar um deles. No meio docente, há uma pessoa que me orgulha muito e me dá a esperança de que esse caminho existe e, por essa e por algumas outras razões (teimosia e romantismo, entre elas), vou seguindo.   
                Espero não estar dando tapa na cara de ninguém com este texto, mas se a carapuça servir, não há muito que eu possa fazer. Queria mesmo que as mobilizações dos estudantes incluíssem este tipo de reivindicação já que é prejudicial a todos. Digo todos porque mesmo aqueles que se beneficiam ou se beneficiarão deste “sistema” por terem qualquer uma das “qualificações” citadas ou não anteriormente, são prejudicados quando, por exemplo, um professor que deveria ser reprovado no concurso em que participou entra para dar aula em sua turma no lugar de um outro comprovadamente capaz*, afetando diretamente na qualidade de sua formação. “Mas e daí?! Pra que excelência na formação se esse “professor” tem contatos magníficos que vão facilitar sua vida??* Pra que ser moralmente correto se se pode pegar atalhos??” Posso, neste momento, parecer romântica e idealista, mas pouco me importa. Penso que ser moralmente correto é uma das prerrogativas que me permitirão uma velhice tranquila (se não chegar lá, uma vida em paz com minha consciência). Infelizmente, não posso esperar que todos pensem como eu, mas posso sim secretamente desejar.
                Deste modo vou, marujos, seguindo na prancha do navio, com a espada apontando minhas costas, em direção aos dentes do tubarão. Se é pra ser assim, que seja. Mas que antes eu maravilhe a alguns com o salto triplo-mortal-olímpico que hei dar antes de cair na garganta do monstro (me rendi ao clima do blog).


*Fui orientada pela direção do blog a não dar nomes aos burros para evitar constrangimentos (des)necessários.

sábado, 9 de abril de 2011

Sinal Preto Entrevista: Hélio Mattos, Prefeito da UFRJ


Sinal Preto entrevista hoje o Prefeito da Cidade Universitária, Hélio Mattos. A dois dias da eleição para a próxima gestão da Reitoria, Hélio faz um balanço da histórica gestão de Aloísio Teixeira, contando a situação em que se encontrava a Universidade no início da gestão, as vitórias da Reitoria e quais serão os desafios para a próxima equioe a ser eleita. Defensor das causas populares na UFRJ, fica claro o orgulho que tem o prefeito desses últimos 8 anos, marco na história da Universidade Federal do Rio de Janeiro


Professor Hélio, o Sr. foi Prefeito da Cidade Universitária nas duas gestões do professor Aloísio Teixeira. Qual balanço o Sr. faz, como integrante da Reitoria, dessa gestão tão polêmica do ponto de vista do debate político?


A atual Reitoria entrou em 2003 com a UFRJ toda esfacelada politicamente devido a intervenção ocorrida com a nomeação de Vilhena por Fernando Henrique Cardoso. Os colegiados superiores estavam completamente enfraquecidos.  Aloisio procurou imediatamente recompor o tecido social da UFRJ. Os colegiados superiores: CONSUNI, CSCE, CEG, CEPEG e Conselho de Curadores nesses oito anos tiveram funcionamento regular. Foi introduzida a Plenária de Decanos e Diretores que  mensalmente reúne os dirigentes para apresentação e discussões de propostas.  Uma outra iniciativa importante foi a Reitoria Itinerante que percorreu nesse período todas as unidades da UFRJ. Algumas visitadas mais de uma vez.  Uma maneira da Administraçao Central in loco tomar conhecimento dos problemas  e do que estava sendo realizado nas unidades e decanias.
Outra iniciativa importante foi a introdução da cultura do planejamento.  Existe um histórico no serviço publico de “pedir muito para ter algum”  Com a introdução do planejamento a Administraçao Central, as Decanias e as Unidades puderam trabalhar conjuntamente na Plenária dos Decanos e Diretores no orçamento que a UFRJ envia anualmente ao MEC.  A conseqüência disso foi outra grande conquista dessa gestão que foi o Orçamento Participativo.
O ambiente de pluralidade e respeito a comunidade pode ser analisado quando do episodio da aprovação do REUNI.   A ampla maioria das universidades aprovou o REUNI com o Conselho Universitário protegido pela Policia Federal ou em sessão fechada.   A UFRJ aprovou , sem nenhuma coerção  contra aqueles que eram contrários. Por varias vezes a Reitoria foi invadida e em nenhum momento a forca policial foi acionada.  Podemos citar a pacificação em unidades problemáticas como a FND e INDC.
Durante o governo Lula a agenda da educação superior foi colocada em destaque. E a UFRJ que andava fora do cenário nacional foi protagonista. A Universidade deve expressar  o canal da democratização da nossa democracia. Isto implica ser um espaço de mobilidade social. Cinqüenta e três milhões de brasileiros são pobres.  Hoje, 97% dos jovens estão matriculados no ensino fundamental, contra apenas 12% na Universidade dos quais apenas 2% nas IFES. Na Europa, 80% dos jovens são universitários, e no nosso vizinho Uruguai, 30%. A mobilidade social exige  a presença dos jovens pobres na universidade pública e gratuita. Essa foi a grande luta política da atual Reitoria nos últimos oito anos.  Uma contribuição ao debate nacional dada pela atual Reitoria foi o posicionamento em relação ao fim do vestibular que  é uma prova específica que exige um preparo que não é de graça, beneficiando estudantes que podem pagar cursinhos ou boas escolas.  Que induz a uma seleção social que exclui famílias de baixa renda. Hoje, 80% dos estudantes que se formam no Ensino Médio vieram de escolas públicas. Mas apenas 13% dos que ingressam na UFRJ são de escolas estaduais. Cerca de 70% dos nossos alunos estudaram em colégios particulares. A introdução da cota social aprovada em 12 de agosto de 2010 foi uma marco nessa luta.
 A aprovação do REUNI em 17 de outubro de 2007 com a criação de novos cursos e aumento de vagas foi um marco. No final do mandato passamos de 6.000 para 9.000 vagas no programa de expansão. Temos que avançar para 12.000 vagas anuais. Foram abertas 500 vagas para docentes em 2010 e 1500 vagas para técnicos administrativos. Quando chegamos em 2003 nosso orçamento eram aproximadamente R$ 35 milhões e chegamos sem nenhum recurso para investimento. Chegamos a 2011 com um orçamento de R$ 350 milhões com mais de R$ 100 milhões para investimentos.


2- Durante a corrida para a eleição da Reitoria que se aproxima, vem se falando que a atual gestão não levou à frente o PDI, Plano de Desenvolvimento Institucional. Que plano era esse? Qual era o objetivo da Reitoria ao lançá-lo? É verdadeiro o argumento de que ele fora engavetado? 
Em fevereiro de 2005, o prof. Aloisio Teixeira reuniu durante cinco dias toda a equipe em Macaé e ao final foi lançado o documento do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Ele enviou esse documento para todos os conselhos superiores, todas as decanias e unidades e percorreu durante 2005 e 2006 todas as unidades discutindo esse documento. Ele  foi lançado após dois anos de mandato em condições favoráveis alcançadas pela institucionalidade implantada nos primeiro momentos da Reitoria e fruto também da ampla participação das unidades e decanias nesse processo. Ele serviu como um grande instrumento de discussão de uma carta programática de referencia para tudo relacionado a UFRJ, serviu como um modelo de planejamento comum a toda a universidade atacando principalmente a cultura da fragmentação e do patrimonialismo. Serviu para alavancar as idéias de renovação e desenvolvimento da UFRJ. Ele não foi abandonado Em 2007 ele serviu de base para o Plano de Reestruturação e Expansão (PRE)  cujas formulações serviram para em 2008 lançar o Plano Diretor da UFRJ -2010-2020.
4- Sobre a expansão que vive a UFRJ, o Plano Diretor é bastante ousado ao criar condições para que a Ilha do Fundão seja realmente uma Cidade Universitária, acessível aos estudantes e auto-suficiente do ponto de vista social e acadêmico. Que demandas foram criadas  a partir de então? Quais são as perspectivas para o futuro?
A atual Reitoria inaugurou em 12 de agosto de 2010 a primeira parte da estação de integração. As 32 linhas de ônibus externos que ligam toda a cidade ao campus, em hoje nesse espaço a integração com o transporte interno. Hoje o transporte interno circula durante 24 horas do dia, inclusive aos sábados, domingos e feriados no campus. Em breve teremos a Praça da Alimentação e banheiros que estão em fase de licitação. Todo o entorno do HUCFF e IPPMG será reurbanizado.  A Praça Walter Mors que era antes um grande matagal, sem iluminação, hoje e a porta de entrada no campus. Investimos com recursos do REUNI aproximadamente R$ 2,5 milhões na novo sistema de iluminação publica. Trocando o antigo sistema e levando iluminação a ruas e avenidas que não possuem esse serviço.  Foi construído uma rede de ciclovias, ciclofaixas e calçadas. Hoje você anda todos o campus em calcadas.  As salas da FAU-EBA estão em construção, já foram construídas novas salas para o CT. Foram reabertos dois restaurantes universitários e no CCS será inaugurado esse ano as salas para os novos cursos.
5- Com a aprovação da reserva de vagas na UFRJ e também do ENEM/SISU, A UFRJ elaborou um plano muito avançado de Assistência Estudantil, que além do que é de praxe, visava dar apoios acadêmicos, como era o caso da disponibilização de laptops. Qual é a expectativa de recepção destes jovens? 
Todos os estudantes que fazem  o Enem passam a ser candidatos em potencial para a UFRJ. Atualmente, jovens da rede pública nem sequer tentam o vestibular. Eles sentem que não têm a menor chance. Na verdade, há uma auto-exclusão dos estudantes. Isso está errado. A universidade tem que ser boa para muitos. Nos Estados Unidos, 60% dos jovens entre 18 e 24 anos estão nas universidades. Na América Latina, a média é 32% e no Brasil, 13%. Por isso, a mudança na seleção é um avanço importante. E o primeiro caminho para acabarmos com o nefasto vestibular. Não basta somente aumentarmos as vagas, temos que democratizar o acesso a excelência dos cursos da UFRJ. Hoje temos os cursos mais disputados, como Medicina, Direito e Odontologia tem em suas turmas a presença dos cotistas. A UFRJ é uma universidade pública, sustentada com recursos do povo brasileiro e não possui o  direito de escolher os jovens que vão entrar.
Foi aprovado junto com as cotas sociais em agosto de 2010, o documento “"PROPOSTA DE AÇÃO PROVISÓRIA PARA GARANTIR ACESSO E PERMANÊNCIA DE ALUNOS PROVENIENTES DE FAMÍLIAS DE BAIXA RENDA” que serviu de discussão para uma política de inclusão social de cidadania a ser implementada em 2011. Existem os recursos no orçamento de 2011 e a mobilização estudantil é fundamental para garantir os itens desse documento. A derrota dessa política significará um grande retrocesso que será explorado por aqueles que entendem que a excelência e qualidade dos cursos da UFRJ são para os melhores filhos da classe média.
6- Por fim, como o Senhor vê a realização destas eleições para a Reitoria? Os candidatos estão sintonizados com este debate inaugurado por sua gestão? Em quê se darão as polêmicas a serem enfrentadas pela nova reitoria a ser eleita?
Desde 1985 que a UFRJ garantiu esse direito. Foi quebrado em 1998, com a intervenção de Fernando Henrique Cardoso que nomeou aquele que não eleito pela comunidade. Isso causou uma grande fratura no tecido social da UFRJ. Foi retomada com a eleição de Carlos Lessa e depois os dois mandatos de Aloisio Teixeira.  Os debates eleitorais estão lotados e o interesse é muito grande. Os desafios da nova Reitoria será continuar com esse desenvolvimento da UFRJ fazendo as adaptações necessárias na gestão, bastante comum na troca de mandato. Tivemos um período de oito anos de franco crescimento dos recursos orçamentários durante o Governo Lula. São preocupantes as primeiras medidas do atual governo. Nada garante que esses investimentos continuem nesse ritmo e será um grande desafio que teremos que enfrentar.

terça-feira, 22 de março de 2011

Eleições da UFRJ : O legado de Aloísio Teixeira


Aloísio Teixeira,
Reitor da UFRJ
Estão inscritas quatro chapas para a eleição da reitoria da UFRJ. Pela situação o candidato é o professor da COPPE, Carlos Levi, que foi também Pró-Reitor de Planejamento na gestão de Aloísio Teixeira e é o homem responsável pelo Plani Diretor da UFRJ. Capitaneando a Oposição está o professor da Faculdade de Letras, Godofredo de Oliveira Neto, também com longa trajetória política na Universidade. Estas eleições acontecerão após 8 anos de gestão do professor Aloísio Teixeira, que após turbulentos debates e à revelia do conservadorismo da universidade conseguiu colocar a pauta da democratização do ensino superior na ordem do dia.




Por Allysson Lemos

Vem chegando ao fim uma trajetória vitoriosa. A gestão de Aloísio Teixeira sem dúvida é um marco na História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Universidade que recentemente completou 90 anos, viu-se na última gestão como um modelo na discussão do que deve ser a democratização do Ensino Superior no Brasil, em contraposição ao seu passado de elitismo.
Aloísio Teixeira, antes mesmo de ser Reitor, já era um símbolo da luta anti-neoliberal na universidade. Tendo ganhado uma eleição nos tempos de Fernando Henrique Cardoso e não sendo empossado através do mecanismo vil da chamada Lista Tríplice, onde a União pode escolher o candidato que mais esteja atrelado a sua política, ao invés de dar posse ao candidato mais votado pela comunidade acadêmica. Assim, Aloísio só veio ser reitor em 2003, já em tempos de Governo Lula.
E foi neste período que a federal fluminense conseguiu respirar aliviada, passado o período dos sucessivos cortes de verba da educação. Com o cresimento do orçamento da universidade, não bastava mais repassar o dinheiro para as despesas de custeio e para a concentração em projetos de pesquisa mais badalados. Era preciso investir em assistência estudantil,ou seja, bandejão, transporte interno, alojamento, etc. Enquanto os estudantes se debruçavam sobre as polêmicas da Reforma Universitária, que até hoje não foi votada, a Reitoria lançava o histórico PDI em 2006, documento que iria dar as bases do que foi a discussão do REUNI. Ali se estabeleceriam os eixos da política educacional que era a utopia da gestão de Aloísio, o ensino interdisciplinar e a construção da cidade universitária, unificando os campi da UFRJ na Ilha do Fundão.
Neste mesmo ano, as diversas correntes do movimento estudantil fizeram um ato unificado dizendo a Reitoria que a prioridade era a reinstalação dos bandejões, afinal estes foram desativados no Governo Collor e desde então o segmento estudantil não tinha essa assistência. As obras foram iniciadas e a reitoria terminará sua gestão com o Bandejão Central em funcionamento há cerca de dois anos, além do Bandejão da Letras também em funcionamento e o Bandejão do CT/CCMN por concluir suas obras.
Reeleito em 2007, Aloísio possivelmente não imaginaria a grande polêmica que estava por vir. Neste mesmo ano, o Governo Federal lança o decreto do REUNI. Um plano de metas que visavam a reestruturação e expansão da Universidade. Em resumo, o plano previa ampliar o número de vagas para estudantes no Ensino Superior, além de trazer consigo um debate sobre os currículos. As próprias Universidades deveriam planejar como implementar o programa em seus campi.
Daí a Reitoria lançou o PRE, Plano de Reestruturação e Expansão da UFRJ, onde estavam previstas as contratações de 500 professores, a duplicação do número de alunos e a transferência de todos os cursos para o Fundão. Além disso os cursos seriam transformados em grandes bacharelados nas áreas humanas, tecnológica e biomédica, a fim de que o conhecimento produzido na Universidade ganhasse de fato ares universais, formando profissionais com maior conhecimento geral, para depois investirem em sua especialização.
Isto seria a gota d`água para os conservadores da Universidade. Acostumados com o caráter elitista histórico do Brasil, não poderiam ver a UFRJ abrir a porta para mais milhares de estudantes terem acesso à ela, isso comprometeria o seu "ensino de excelência". A idéia de interdisciplinariedade também entraria em choque com os poderes estabelecidos dos departamentos, dos "donos do saber". Sem falar na ida para o Fundão, local situado na Zona Norte, longe da elite carioca da Zona Sul.  
Este embate durou longos anos, mas a política inovadora foi vitoriosa, isso é inegável. Se o PDI não andou, como dizem por aí, é possível dizer que a UFRJ expandiu, criou novos pólos, triplicou seu orçamento, criou cursos novos com a estrutura acadêmica proposta, a fim de serem uma experiência que servirá de exemplo para a "Velha Universidade". Nas palavras do professor de Sociologia, Paulo Baía, "Aloísio está construindo a Universidade Nova por fora da velha".
Além disso, depois de quase vinte anos a UFRJ tornou a ter bandejões. O transporte interno funciona muito bem e agora conta com um terminal rodoviário. E para terminar a gestão com chave de ouro, a Reitoria atendeu às demandas dos movimentos sociais aprovando a reseva de vagas na UFRJ e pondo em cheque o regime excludente de acesso à Universidade, o Vestibular.
Desta forma, a eleição que está por vir não conta com um projeto alternativo ao da última reitoria. O debate progressista comandado por Aloísio hegemonizou as discussões educacionais na UFRJ. A oposição possivelmente se utilizará do debate corporativo a cerca da "Ida para o Fundão", como foi visto em entrevista do candidato Godofredo ao Jornal da UFRJ, mesmo sendo algo que cada vez mais perde sua força. No entanto, todas as entrevistas ressaltam a necessidade de mudar a estrutura departamental, inclusive a do candidato Alcino, que caracteriza a UFRJ como uma "Federação de Unidades".
Ou seja, se a gestão de Aloísio foi vitoriosa do ponto de vista das melhorias que trouxe à Universidade, mais importante ainda é o seu legado político, de pôr em cheque a estrutura excludente do Ensino Superior brasileiro.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Academia fala do Egito

O Globo de hoje trouxe algumas publicações de acadêmicos pelo mundo que comentaram o processo político que vive o Egito. Sem dúvida, a melhor reportagem de toda a cobertura do Jornal sobre o tema.  São 5 artigos vindos de França, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Israel. As declarações apresentam algumas divergências , mas as diferenças de fundo se colocam através da escolha da estrutura analítica.
Visões mais materialistas se contrapõem com a idealista de Christopher Taylor, professor de estudos islâmicos da Drew University, de Nova Jersey, em que o mundo caminha para a perfeição da democracia liberal norte-americana e seus valores. Diz ele: "O Egito passa por uma mudaça muito difícil em direção à democracia, mas tenho muitas esperanças. Acho que o fato de as pessoas estarem agindo sempre pacificamente tornará muito difícil que seja imposto novamente algum tipo de regime militar." E completa com requintes de ocidentalismo: " A outra coisa que me anima é que os jovens do Egito têm muito contato com a mídia ocidental. O Egito e outros países árabes têm grandes contingentes de joves com alto nível de educação, e muita consciência do que se passa no mundo."
Já Karim Bitar, especialista em Oriente Médio do Instituo de Relações Internacionais e Estratégicas de Pequim, não tem a mesma visão do mundo cor-de-rosa do americano, e faz uma análise próxima à apresentada pelo Sinal Preto nestes dias, do futuro do Egito em disputa:
"Vejo duas saídas para o Egito. Uma respode aos anseios do povo que se manifestou na praça Tahrir, e outra responde aos Estados Unidos e outros países da região. Os maifestantes da Praça Tahrir querem não apenas a saída de Mubarak, mas de todo o regime.( ...)
Mas o melhor cenário para os EUA e os vizihos do Egito é outro. Eles querem no lugar de Mubarak um poder em torno do Exército egípcio e do vice-presidete Omar Suleiman."
Sobre o Exército, é de recohecimento de todos que trata-se de uma instituição protagonista do velho regime. Mas quanto ao que será o futuro do Egito, estão em desacordo. Para Bitar, o Exército deve conseguir reorganizar a sua estrutura dominante. "O Exército permanece muito organizado e recebe dos EUA US$3 bilhões por ano. Os islamitas são a oposição mais estruturada o Egito, mas não a única. Há uma oposição egípcia laica e feminista que tem raízes nos anos 1920". Já Hamad El-Aouni, cientista político tunisiano, professor da Universidade Livre de Berlim, acredita em uma opção popular. "Há muitos talentos políticos que não apareciam antes por causa da falta de democracia.(...) Na futura arquitetura política, a Irmandade Muçulmana terá peso, mas não vai superar os 15% e por isso não vai ocupar o governo. Muitos analistas têm apontado para o perigo de um regime fundamentalista no Egito, assim como existe no Irã. Trata-se de uma especulação absurda. Os egípcios são sunitas e recusam o sistema hierárquico dos xiitas, como no Irã.(...)  Os exemplos da Tunísia e do Egito serão vistos nos próximos meses nos outros países árabes. Também em Argélia, Iêmen, Jordânia, Líbia, todos os 21 países árabes passarão a ter regimes democráticos."
Por fim, para o israelita do Departamento de Oriente Médio da Universidade de Haifa,Uri M. Kupferschmidt, falta um projeto à revolução egípcia. Segundo ele, curiosamente, este só existia em Mubarak. " Mas, além da questão polítca, é preciso pensar no plano sócio-econômico. Parte da raiva da multidão na Praça Tahrir é direcionada  a situação econômica do país: desemprego, inflação, baixos salários. (...)  Por causa da falta de plataformas claras sócio-econômicas é que não cosidero o que acontece no Egito como uma revolução. Revolução é quando há mudaça no regime, incluindo o plano econômico. É quando há uma substituição de uma filosofia social-econômica por outra."
Se por um lado o conceito de revolução se adequa a uma visão marxiana, é errada a preocupação de Kupferschimidt com a Irmandade Muçulmana, que para ele poderá criar um governo fundamentalista anti-Israel. O obstáculo para a consolidação da revolução é o Exército, que de forma oportunista se coloca como alternativa à ditadura Mubarak. A direção revolucionária há de surgir do movimento, e sem dúvida a Irmandade Muçulmana fará parte, haja vista que já faz parte do povo insurgente. No entanto, o possível caráter anti-Israel da revolução não foi abastecido por nehum fudamentalismo, mas por anos de política imperialista, que através de Mubarak fez a miséria do povo egípcio por mais de 30 anos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Portal Vermelho: "Chomsky: EUA estão seguindo seu velho manual no Egito"

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, o linguista e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Noam Chomsky, analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles. Na sua avaliação, o governo Obama está seguindo o manual tradicional de Washington nestas situações.

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Iêmen de abandonar o cargo ao final de seu mandato.
Leia também:
Noam Chomsky fala nesta entrevista sobre o que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”. Veja abaixo a entrevista completa.

Democracy Now: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak.

O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Democracy Now: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?
Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos têm um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses.

Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Democracy Now: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes.

Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

Democracy Now: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?
Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.

Democracy Now: O que acontecerá com a Jordânia?Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.

Moção do Conselho Universitário da UFRJ ao anúncio do corte de gastos do orçamento da União

MOÇÃO

O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reunido em sessão ordinária, em 10 de fevereiro de 2011, manifesta sua profunda preocupação com as notícias veiculadas na imprensa de hoje, que anunciam cortes orçamentários a serem efetivas no ano fiscal de 2011.
O Conselho Universitário entende que essa não é a única ― nem a melhor ― política para conter a inflação, objetivo apresentado para justificar o corte; ao contrário, essa política traz consigo, inexorável e independentemente da vontade de seus formuladores, a uma opção em favor das camadas já privilegiadas da sociedade brasileira. Juros altos e corte de gastos sociais são o caminho para a ampliação das desigualdades e a redução do emprego.
Esse quadro se agrava à medida em que estão em curso, no sistema público federal de educação superior, processos de expansão e reestruturação que exigem não a redução mas a ampliação dos gastos de custeio e investimento, inclusive pessoal com a contratação de novos docentes e servidores técnico-administrativos. A frustração, ou mesmo a redução, do fluxo de recursos necessários à continuidade do processo de expansão poderá gerar uma crise no sistema universitário federal sem precedentes.
O Conselho Universitário da UFRJ, por fim, está certo de que esse equívoco será corrigido e o Governo Federal saberá honrar seus compromissos, aumentando os recursos destinados à educação em todos os níveis, à saúde pública e à assistência social, avançando na promoção do desenvolvimento econômico, estabelecendo condições para o pleno emprego e empenhando-se a fundo pela inclusão social, até que o ciclo de desenvolvimento alcance a totalidade dos brasileiros.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Força de Trabalho à Venda

"Vende-se força de trabalho. Jovem, 22 anos, recente pai de família, graduando em Ciências Sociais, hábil em compreensão de Inglês e com noções básicas de Espanhol, sem experiência com carteira assinada, experiência com bolsa de pesquisa."


Este anúncio anda na praça há cerca de um mês com apenas um retorno objetivo. Promotor de vendas da Skill. Não sendo hábil na venda de um picolé de jiló, uma geladeira para o Pólo Norte ou uma rosa murcha no Dia dos Namorados, não me apresentei como uma pessoa interessante para ocupar a vaga.
São grandes ainda as dificuldades para o jovem que cedo tem a necessidade de constituir família, de conseguir base material para sustentar um lar. Não tendo uma formação técnica, essas dificuldades são ainda maiores. Se tivesse eu concluído  meu técnico de informática no proletário Colégio Primeiro de Maio, talvez hoje não estivesse nesta pindaíba.
Mas o objetivo deste artigo não é nem me lamentar nem vender o meu peixe, apesar de ter feito os dois por tabela. Tudo isto nos coloca uma reflexão : a falta de legitimidade da Universidade já tem seus reflexos no mercado de trabalho.
O leitor atento diria : "Ah, mas se você estivesse cursando Engenharia não estaria nessa". E, sem dúvida, é verdade. O interessante é observar que não apenas na Engenharia, como nos cursos de ponta do capitalismo, ( a saber: Admnistração, Contabilidade, Direito) o mercado concorre com a Universidade. No nosso exemplo inicial, a Engenharia, assistimos muitos graduandos que empregados no terceiro ou quarto período abandonam a faculdade, por não mais necessitarem dela. Na Admnistração, conversando com lideranças do curso na Praia Vermelha, a maior inquietação é que quase não há produção de pesquisa ou qualquer vínculo com a universidade, tendo em vista que os estudantes estão sendo preparados exclusivamente para o mercado.
Estes são os cursos de ponta, aqueles em que a produção tem um interesse direto. Os que tendem para a área de Humanas, estes sim estão perdidos. Não há espaço para nós na vida social, além do campo acadêmico e, o campo acadêmico hoje está cada vez mais apartado desta vida social, tem aspirações de auto-suficiência. E o efeito disto, agora percebido com mais clareza por mim, está nas ruas. De que me adianta a condição de futuro sociólogo? De que me adianta a minha bagagem no estudo das Ciências Sociais? De nada adianta, frente a este mundão, que por ver a Universidade de cara feia para ele, passa também a não dar muita atenção para ela e seguir outros caminhos.
É Academia, é bom você dar o seu jeito, porque sobreviver neste mundo cão não está fácil. Eu vou dar o meu jeito, acho bom tomar tento também.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Disputa pelo Conhecimento

Vou aproveitar este primeiro artigo para expressar algumas inquietudes particulares a respeito deste tema, tendo em vista algumas observações recentes sobre a hierarquia acadêmica e a cruel competitividade imposta àqueles que buscam um lugar nesta “ilha do saber”. Para isso me parece interessante um olhar nas formas de construção do conhecimento e um tanto da trajetória do que hoje conhecemos como Universidade.
A produção do conhecimento, diferente da noção instituída que temos hoje, emana das experiências desenvolvidas por determinada comunidade, sociedade e, nada mais é que a apropriação e interpretação de alguns indivíduos destas experiências. Desta forma, não haveria gênio que projetasse uma nave espacial sem que antes fosse descoberta a energia elétrica.  
Assim foi a origem da reflexão do homem ocidental sobre si próprio. O início do que se convencionou chamar de filosofia deu-se em reflexões coletivas em praça pública através do diálogo entre homens que buscavam explicações para a existência humana, a origem das coisas, o funcionamento da natureza, etc. Daí surgiu o que entendemos hoje por “áreas do conhecimento”, como a matemática, por exemplo.
Num período mais recente da História, o conhecimento se institucionalizou através da Universidade, que através das suas cátedras criou também os proprietários do saber. Alguns passaram a ser os detentores legítimos do conhecimento social em detrimento daquilo que pode ser apreendido das experiências populares. Para se ter uma idéia, só se foi discutir ensino superior no Brasil com a vinda da corte portuguesa, que necessitava de serviços médicos e de engenharia.
Com o advento das noções modernas de ciência, do empirismo, com o surgimento dos “especialistas”, possivelmente estaria dado o golpe fatal na Filosofia. As grandes reflexões, as visões totalizantes, estas perderiam lugar para a ciência do específico. Assim o acadêmico perde cada vez mais a condição de intelectual, de sujeito interventor da vida social e, passa a habitar um campo, uma comunidade acadêmica, que mais parece uma ilha.
As ciências sociais, ramo do saber que paradoxalmente eu curso, é o maior reflexo disso. O saber militante, aquele que produz conhecimento a partir da experiência da luta é visto como inimigo da ciência. Assim proferido numa disciplina sobre trabalho : “eu não levanto bandeira, eu produzo teoria”.  Esta forma de produção de conhecimento, de estudiosos que neste caso acham que só houve fábrica ou exploração capitalista no ABC dos anos 80, com certeza transmite uma apreensão idealizada da realidade, não é pautada no que é concreto, não dialoga com o conhecimento produzido pelos próprios atores sociais, os compreende apenas como objeto de estudo.
Termino dizendo que, no entanto, este tamanho afastamento da vida social faz com que a Universidade perca sua legitimidade, e que hoje estão colocadas novas  demandas que vão além do que a ciência iluminista possa oferecer. Não compreendido isto, a tendência é a perda de seu lugar social por parte da Universidade.