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sábado, 8 de outubro de 2011

A Seleção



Há algum tempo a "Seleção", (forma como é representada a seleção brasileira de futebol, sem a necessidade de muito mais explicações), vem perdendo a atenção dos amantes do futebol, que dedicam muito mais sua paixão aos clubes. Símbolo da nação brasileira desde a ditadura militar, a portadora da camisa canarinho vem perdendo prestígio entre os brasileiros.
Alguns atribuiriam isto ao fato de que a Seleção vem sendo composta por jogadores de clubes do exterior, que não teriam apelo popular por serem desconhecidos do povo. De qualquer forma, este fenômeno começa a ser revertido, com uma recente valorização do campeonato nacional, onde grandes patrocinadores têm investido. Isto vem permitindo ao Flamengo ter Ronaldinho, ao Corinthians ter Adriano, ao Fluminense ter Fred, ao São Paulo ter Luís Fabiano. E isto tem feito com que a Seleção, na era Mano Menezes, venha priorizando os jogadores dos clubes nacionais.
No entanto, o problema parece ser outro. Em entrevista no início do jogo, o técnico Mano Menezes, cauteloso antes mesmo do jogo contra a fraca Costa Rica começar, se valeu da velha falsa polêmica "futebol bonito x futebol de resultado". Este falso dilema é estranho ao brasileiro, que sempre esteve acostumado a ganhar jogando bonito e, muitas vezes não vê nem um, nem outro.
Parece-me que a nova geração de jogadores brasileiros não apenas está longe do que foram as anteriores, como não está no nível das outras grandes potências do futebol. E isto é algo com o qual o brasileiro parece estar se acostumando, ao contrário da mídia esportiva incorrigível, que segue vivendo do passado. Fritaram o técnico Dunga por não ter ganhado a Copa do Mundo de 2010, com o argumento de que os jovens Neymar e Ganso, que representariam o genuíno futebol brasileiro, seriam a solução para a Seleção. Um ano depois, ambos surgiram como a solução de Mano Menezes. O fracasso que era evidente, se realizou, e Ganso inclusive nem é mais convocado.
A solução? Não sei dizer. De qualquer forma me parece que a consolidação do futebol como mercadoria não fez bem ao Brasil. Altos salários, vidas de ostentação e consumismo, parecem fazer com que nossos craques esgotem suas carreiras aos 25 anos, o que deveria ser os seus auges. Além disso, a prática de formação de base parece menos valorizada, que associada com a carência de espaços públicos onde o futebol possa ser estimulado e praticado culminem na deficiente revelação de jogadores.

sábado, 17 de setembro de 2011

Em busca de uma Turquia asiática

Por Suellen Lannes

A Turquia sempre tentou angariar espaço no mundo asiático e no Oriente Médio, mas se deparava com alguns problemas. O primeiro era a atuação hegemônica que a União Soviética detinha e o cenário de bipolaridade que fazia com que a escolha por um dos lados fosse decisiva. As pretensões ocidentais turcas falaram mais alto e a entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) consolidou a visão da Turquia como um obstáculo ao avanço soviético. Além disso, essa adesão expôs uma questão delicada, Israel.
             A disputa entre israelenses e palestinos sempre foi uma causa de tensão na região e uma definição de “amigos” e “inimigos”. Pela grande aproximação com a Europa e a participação na OTAN a Turquia apresentava uma postura de “boas relações” com Israel, tendo reconhecido o Estado, em 1949, e estabelecido acordos militares, em 1996. Essa relação fez com que os demais países árabes e/ou muçulmanos olhassem com certa desconfiança para a Turquia. Para contornar esse problema, o país do crescente sempre procurou atuar de forma neutra e estabelecer laços comerciais fortes com os países da região. O caso mais emblemático disso é a sua relação com o Irã.
            Desde a revolução iraniana em 1959, a Turquia vem mantendo fortes laços comerciais com o Irã, principalmente por causa do petróleo, cuja importância já foi reconhecida pelo aiatolá Khomeini. Ao mesmo tempo, durante as divergências com os Estados Unidos e na guerra entre Irã-Iraque, a Turquia apresentou uma postura de neutralidade procurando estabelecer posições de diálogos entre as partes envolvidas. Esse comportamento explica parte a atuação do país na elaboração de um acordo com o Brasil e o Irã sobre enriquecimento de urânio.
            Assim, “com um olho na missa e outro no padre” a Turquia estabeleceu um caminho geopolítico procurando se favorecer da sua posição geográfica simbolizada pelo estreito do Bósforo, importante via de navegação, e por ser a ponte entre Europa e Ásia. Através da sua “sorte” atuou estreitando os laços com as grandes potências hegemônicas e ao mesmo tempo, não se esquecendo dessa mesma localização procurou, por meio de sua virtù, atuar como mediadora dos conflitos que envolvem os seus vizinhos, se tornando uma importante parceira comercial e um ator político relevante. Mas desde o fim da Guerra Fria essa postura vem passando por sensíveis mudanças.

sábado, 10 de setembro de 2011

Em busca de uma Turkey

Estreamos hoje a coluna semanal de Suellen Lannes. Primeira das novidades do Sinal Preto em sua volta. Suellen é autoridade tratando-se do Mar Mediterrâneo e as terras por ele banhadas. Hoje os conquistadores de Constantinopla estão na outra extremidade da luneta.

Por Suellen Lannes:

Localizada estrategicamente, entre o continente europeu e o asiático, a Turquia conquistou vantagens consideráveis por sua posição geográfica, assim como problemas. E desde a dissolução do Império Otomano, após a Primeira Grande Guerra, os governantes turcos vêm construindo a sua geopolítica tentando conciliar o seu projeto de se tornar europeu com o reconhecimento de ser um Estado asiático.
            A própria construção do Estado turco pós-Império demonstrou essa tendência. Podemos resumir essa construção em duas premissas básicas: (1) a construção de um ideal de nação centrado na etnia turca e no laicismo estatal, o que foi reproduzido pela (2) adoção de um projeto de Estado pautado pela “modernização”, o qual idealizado por Kemal Atatürk (1923-1938).  Essas ações tinham como objetivo acabar com a herança do Império Otomano, considerado o “homem doente da Europa”*. Para tanto, foram realizadas obras de infraestrutura por meio de construção de estradas e ferrovias, adoção do saneamento básico, assim como mudanças nas instituições turcas, fortemente influenciadas pelo modelo inglês parlamentarista. Tudo isso influenciado pela presença britânica em território turco, existente desde o Império.
            Essas mudanças internas moldarão o caminho geopolítico traçado pela Turquia ao longo do século XX. Seus governantes centralizarão a sua política externa numa constante aproximação com a Europa, procurando apresentar o país como moderno, pertencente ao velho continente e de importância crucial para a geopolítica europeia. Além disso, de forma mais discreta, a política externa turca atuava procurando angariando espaços na Ásia, se esbarrando com a hegemonia da União Soviética. Essa situação se acentuou ainda mais quando, em 1952, ela entrou na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e passou a representar um freio para a expansão soviética. Com essa decisão, a Turquia afirmou a sua posição de um país ocidental, o que é corroborado pelo seu pedido para se tornar membro associado da Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1959. Essa pretensão continuou ao longo dos anos, mesmo com a mudança da Comunidade para União Europeia e representou o primeiro passo adotado pela Turquia com o objetivo de deixar de ser uma simples aliada, para ser considerada de fato, “europeia”.
            Essa geopolítica foi fortemente apoiada e patrocinada pelos Estados Unidos, mas se deparou com insucessos e com mudanças no sistema interestatal capitalista. Assim, com o fim da União Soviética e a abertura de um vácuo de poder na região da Ásia e do Oriente Médio, as seguidas recusas da União Europeia em aceitá-la como membro efetivo e mudanças na política interna turca, os objetivos geopolíticos turcos passam por um processo de reformulação.



*Expressão do Czar Nicolau I da Rússia.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para Além da Revolução Democrático-Burguesa: Os desafios do socialismo científico na América







Temos visto neste período pós-União Soviética a predominância de disputas étnicas e religiosas nos conflitos políticos recentes. Esta explosão de construção de identidades, de "culturas entre aspas" como define a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha sobre estas culturas auto-proclamadas, é um fenômeno recente que, somado a atual crise do neoliberalismo, vem caracterizando a emergência das lutas populares neste período recente.
O imperialismo, além de subjugar a classe trabalhadora dos países periféricos, força uma política de padronização cultural, a fim de estabelecer uma ordem mundial. Quero dizer com isso que, para dominar, é interessante que além de construir dependência, exercer repressão, imponha-se valores também ao dominado. Para se pensar a emancipação política latino-americana é preciso buscar saídas que reforcem esta identidade em contraposição a identidade de homem ocidental fundada nos valores iluministas e eurocêntricos e, ouso dizer, vem sedo este o equívoco das organizações revolucionárias de nosso continente.
A auto-determinação dos povos, tão cara a Lênin, é no entanto, má desenvolvida pelo leninismo. A saída que a Rússia revolucionária encontrou, de fortalecimento de seu Estado Nacional, de industrialização plena e por conseguinte, de uniformização das atividades econômicas através da universalização do proletariado é tomada como receita pelas organizações revolucionárias que se reportavam a Internacional Comunista, através da tese da Revolução Democrático-Burguesa, que resumia-se na aliança entre proletariado e burguesia para superar os atrasos do regime feudal, o que levou muitas dessas organizações ao fracasso.
Hoje, apesar dessas teorias se conformarem diferentemente, parecem seguir a mesma lógica. A tática destas organizações para a luta política, ainda direcionada para a disputa do Estado-Nação, é a industrialização e o crescimento econômico como fortalecimento do Estado para resistir ao imperialismo. No entanto, como parece revelar o caso brasileiro, este fortalecimento do Estado sem o fortalecimento de identidades tende a descambar para o surgimento de mais uma potência capitalista. Isto pode se verificar no grande lobby do governo brasileiro pelo ingresso no Conselho de Segurança da ONU e suas recentes declarações críticas aos governos islâmicos, o que o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), em entrevista ao programa "Roda Viva", chamou de "se fazer de bonzinho". Fazer-se de bonzinho a quem? Ao imperialismo, sem dúvidas.
Enquanto pensamos a nossa condição de existência política nos moldes universalistas do capitalismo, ou seja, um Estado-Nação uno, neoliberal, com todo arcabouço ideológico universalista que diz respeito às noções de democracia, civilização, cosmopolitismo e, com isso, negação de nossas raízes afrodescendentes, indígenas, será difícil nos desenvolvermos de forma autônoma e principalmente anti-imperialista.
Sobre isso nossos vizinhos vêm nos dando bons exemplos. Enquanto a Venezuela desenvolve a idéia da Revolução Bolivariana, de interação da América, a Bolívia aprovou recentemente uma constituição calcada na cultura dos povos indígenas bolivianos, com autonomia dos povos indígenas e com um Direito pensado também a partir das noções de sociedade desses povos, no que eles chamam de Estado Plurinacional, uma busca consciente de afastamento do Estado-Nação ocidental padronizante. Talvez olhá-los não como nossos irmãos frágeis, mas como irmão que estão sugerindo inovações para o nosso continente fosse mais proveitoso para o nosso próprio "pensar o Brasil".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Jornal O Globo, panfleto do governo norte-americano

                        

                                        Por Allysson Lemos

A História mostra que não é necessário ser de esquerda para ser nacionalista. Ao contrário, o Estado-Nação surge historicamente como o regime político moderno, como projeto político burguês. No entanto, é impressionante a tradição entreguista e vendida da direita brasileira. Entendendo a grande mídia brasileira como formadora de opinião das classes dominantes e, logo, da direita, o jornal O Globo tem apresentado sucessivamente opiniões anti-nacionalistas e pró-imperialistas.
Assim se sucedeu no caso da revolução no Egito, escondendo a antiga relação dos EUA e do Exército egípcio com o governo de Mubarak, assim foi na ocasião em que o Governo Dilma trocou a presidência da Vale para dar um rumo mais nacionalista às relações comerciais da empresa, fazendo um escancarado lobby pela permanência do antigo presidente. E na edição deste último domingo, o jornal publicou uma matéria vergonhosa sobre a possível formação de um partido cocalero no Peru.
A matéria, longe de explicar os processos políticos que têm ocorrido na América do Sul, de auto-afirmação dos povos, de afirmação de sua cultura e suas necessidades em contraste à velha dominação estadunidense no continente, a matéria prefere rotular tudo numa categoria pejorativa possivelmente invetada por eles próprios de "narcopolítica". Num exercício de reprodução de ignorância, o autor faz uma ligação do governo de Evo Morales com os cocaleros do Peru e setores da Colômbia que ele sequer cita no que chama de "Império Cocaleiro". Isto tudo inspirado na possibilidade de um partido cocalero peruano.
No topo da página há uma foto do presidente boliviano com uma folha de coca na mão, sugerindo sua ligação com o narcotráfico. Em seguida, há um gráfico com "os gastos dos EUA na guerra contra o tráfico na América Latina". Portanto, já sabemos que se os EUA resolverem fazer da América Latina o que fazem no Oriente Médio terão o apoio do jornal O Globo.
Para explicar minha indignação, farei uma breve análise do que significam estes processos na América. O governo de Evo Morales foi eleito democraticamente por representar diretamente o povo boliviano. O presidente é um homem de origem indígena, da tribo aiamará, que está estabelecida desde a era pré-colombiana no sul do Peru, na Bolívia, Chile e Argentina. Para se ter uma idéia, existem na Bolívia cerca de 1.200.000 falantes da língua aiamará.  Estas tribos andinas usam a coca para mascar. Como admite a matéria do Globo com desdém, isto é parte integrante de sua cultura antes mesmo da existência do Império Inca. A produção de coca é hoje uma das principais atividades econômicas da Bolívia e, os trabalhadores destas plantações são conhecidos como cocaleros, assim como o era o próprio presidente Evo Morales. Integrante do MAS, "Movimento ao Socialismo", uma das marcas do governo Morales foi a aprovação da nova constituição boliviana, que garante agora um "Estado Plurinacional", respeitando as fronteiras indígenas e marcada por aspectos culturais também indígenas, o que caracteriza o processo como distinto da democracia-liberal burguesa propagadeada pelos Estados Unidos da América.
Se parte da produção de coca é direcionada a produção de cocaína, isso sem dúvida não foi inventado pelos bolivianos ou pelos peruanos. A cocaína, uma droga industrial, depende necessariamente de grandes movimentações do capital não apenas para se produzida como para sua circulação. E, esse capital que deu novo sentido à produção de coca, é majoritariamente estadunidense.
Assim, é legítimo que os cocaleros peruanos organizem seu partido. Trabalhadores rurais, agora reclamam sua representação política. Apresentados como bandidos do tráfico pelo jornal, nada mais são do que trabalhadores assalariados que são explorados pelo capitalismo e que, em seu direito e inspirados nos bolivianos, avançam em sua capacidade de organização.
 O que o jornal faz, é esconder o conflito existente na América Latina dos interesses dos povos contra os interesses dos EUA. Acostumados a nos tratar como seu "quintal", os estadunidenses começam a ver os povos sul-americanos seguirem seus caminhos e por abaixo seus antigos privilégios no continente.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sinal Preto Entrevista: João Bernardo Tavares

Sinal Preto hoje trás a entrevista com João Bernardo Tavares Indí, Bacharel em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Bissauense no Brasil, João foi representante dos estudantes estrangeiros em sua colação de grau. Em entrevista ao Blog, ele fala de suas impressões sobre o Brasil, dos movimentos de independência da África, da Guiné Bissau, seu país, das etnias africanas, da URSS, do Socialismo... Imperdível! Com certeza, Long John lamentará nao ter, ele próprio, feito a entrevista.






Sinal Preto  João, como foi a sua vinda ao Brasil? Quais foram as suas motivações para estudar no Rio de Janeiro e que tipo de dificuldades você teve, se as teve, para estudar aqui?


João Bernardo: Para começar digo obrigado pela oportunidade da sua entrevista. A minha vinda para o Brasil enquadra-se no  acordo cultural entre a Guiné-Bissau e o Brasil.
Senti-me motivado para estudar no Rio de Janeiro visto que a UFRJ é uma instituição de ensino superior de ótimas qualidades e de um prestígio internacional reconhecido e a cidade é muito maravilhosa. Com relação as dificuldades que eu tive, em primeiro lugar cheguei num país novo e cultura diferente, métodos de ensino diferentes, o individualismo, a concorrência desleal que me leva muita das vezes a navegar nas águas das saudades da casa.


Sinal Preto:   Como é sua vida aqui no Brasil?São muitos os bissauenses no Rio de Janeiro? E a convivência com os brasileiros? Fez muitos amigos por aqui? O que lhe pareceu “exótico” e o que lhe pareceu “familiar” nas terras tupiniquins?


João Bernardo: A minha vida aqui no Brasil resume-se só aos estudos. “Casa- faculdade, faculdade- casa” e um pouco da minha interação com amigos guineenses e cariocas. Tem muitos guineenses estudando em diferentes universidades aqui no Estado do Rio de Janeiro. A minha convivência com os brasileiros é muito cordial, sobretudo com os amigos mais chegados. O que me pareceu familiar é a cultura afro-brasileira como a música do samba, o carnaval etc.


Sinal Preto:  As grandes elites brasileiras costumam se orgulhar da nossa “miscigenação”, no entanto sabemos que isso se fez através da dominação econômica e cultural das camadas populares, da escravidão de africanos, do genocídio dos indígenas, etc. Como isso é na Guiné Bissau? Você se reconhece em alguma etnia? Quais são as etnias presentes na Guiné? Existem conflitos?


João Bernardo: Felizmente na Guiné-Bissau isso não se faz sentir, do escravidão e do genocídio, reconheço-me da minha etnia que é a “Papel” e existe muitas outras etnias no universo de 20-30, o que ajudou no enriquecimento da nossa cultura. Nunca existiu conflito pois todas as etnias vivem num ambiente harmonioso.


SP:  O surgimento dos Estados Nacionais na África se deu pelo episódio conhecido como a “Partilha da África” pelas potências imperialistas européias. Costuma se atribuir boa parte dos conflitos no continente a isso. No entanto, boa parte dos movimentos de libertação era também nacionalista, sobretudo os que tiveram sucesso. Como você vê essa questão? O nacionalismo na África é ruim para a preservação das diferentes culturas?


JB: Com o enfraquecimento das Metrópoles européias, desenvolveu-se na África um nacionalismo caracterizado pelo anti-imperialismo e pela busca de soberania política e econômica. Esse nacionalismo viria a ser a base dos processos de independência do período: somente entre 1950 e 1980 surgiram mais de 45 novas nações na África. Esse fato, entretanto, não trouxe paz para o continente, pois as fronteiras impostas pelos europeus, raramente modificadas com as independências, contribuíam para a eclosão de conflitos no continente, a maior parte deles relacionados a diferenças étnicas.
Com as independências, muitos dos novos Estados tentaram manter sua coesão
territorial por meio da federalização, onde cada etnia pudesse estar representada no
governo central. 



SP:  Muitos destes processos de independência foram apoiados pela URSS e pela China. O que você acha do socialismo?


João BernardoAs experiências mais representativas de implantação do socialismo no continente africano ocorreram nas antigas colônias portuguesas . Quando se libertaram, em 1975, optaram pelo rompimento com o antigo modelo colonial de orientação capitalista.


SP:  Como foi este processo na Guiné?


JB: Após a conquista da independência política em 1974 a Guiné-Bissau optou por um modelo de desenvolvimento profundamente inspirado no modelo socialista, embora o PAIGC, partido que conduziu vitoriosamente a luta de libertação nacional contra o colonialismo português, nunca tivesse inscrito no seu Programa, como fizeram os seus "companheiros" de luta de Angola e Moçambique, a construção do socialismo científico como uma meta a atingir.
Esta opção tinha sido motivada essencialmente por duas razões. Por um lado a ajuda recebida dos países socialistas e particularmente da então União soviética tinha que ser de alguma forma reconhecida, ao mesmo tempo que se deviam criar as condições internas para que, através de um relacionamento econômico de "novo tipo", se pudessem preservar os "aliados naturais". Por outro lado, tinha-se constatado que os países que tinham ensaiado um modelo de desenvolvimento de tipo liberal viram as suas estratégias fracassadas.
SP:   O fim da URSS influenciou os processos de luta por independência na África?
JB: Influenciou sim, pois a URSS ajudava na formação dos quadros e assim como no financiamento dos materiais bélicos para expulsar os colonos.
SP  Sobre o recente processo político que vive o Egito. O que ele representa no contexto político do continente africano?
JB:  A revolução do povo egípcio, mostra que a nova era da democracia já não permite os regimes despóticos em África, outrossim,  visa a politização da massa egipciana.
SP:   Por fim, quais são suas expectativas para o futuro? Pretende voltar à Guiné Bissau? Foi proveitosa a estadia no Brasil?
JB:  O meu reconhecimento por todo saber e experiência partilhada e principalmente pela atenção e delicadeza que sempre almejo para um futuro promissor.
Também sou grato, a todo corpo docente do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), razão pela qual comprometo-me a ser multiplicador dos valores e princípios éticos e morais desta magna instituição do ensino superior no mundo afora. Pretendo voltar sim, para o meu país Guiné-Bissau, e a experiência vivida no Brasil foi fantástica onde pude aproveitar o que é de melhor. Aos meus honrados mestres, verdadeiros colaboradores desta conquista, amigos das horas incertas, o meu reconhecimento por todo saber e experiência partilhada e principalmente pela atenção e delicadeza que sempre me proporcionaram. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Trilogia Bourne




Por Allysson Lemos


Quem não viu os três filmes "A Identidade Bourne", "A Supremacia Bourne" e o "Ultimato Bourne" não sabe o que está perdendo. Suspense estadunidense típico, com carros andando na contramão, subindo escadas, tiro, lutas e ação o tempo inteiro com uma trama a se desenrolar, a trilogia é um verdadeiro quebra-cabeça e prende a atenção do espectador. Além disso, os filmes nos abrem a possibilidade de diversas reflexões, à medida que Jason Bourne vai descobrindo o seu passado esquecido, de forma que se a trilogia tivesse um nome, seria a do primeiro filme: "A Identidade Bourne".
Quem é Jason Bourne? Esta é a pergunta. Suas incríveis habilidades de luta, fuga, percepção espacial e a constante perseguição que sofre já o levam a sérios questionamentos. Quando se descobre um assassino da CIA, o personagem de Matt Damon entra numa grande autocrítica moral.
Mas a pergunta é: por quê? Por que um convicto assassino da CIA, treinado para servir os interesses norteamericanos, ao perder a memória viria a questionar isso tudo? O espectador poderia imaginar que a condição de bom ou mau é uma questão de circunstâncias. O fato é que Jason tem uma mudança de perspectiva com a perda da memória e segue em busca de seu passado.
Com a morte de sua companheira no segundo filme, Jason pára de fugir e vai atrás dos podres da CIA que revelarão sua vida e sua atual condição de perseguido. Descobre os assassinatos que executou e vai trilhando o caminho até chegar ao projeto que participou que lhe causou a amnésia. Bourne, então David Webb, por sua própria vontade, aderiu ao projeto Blackbriar a fim de "salvar vidas americanas" e defender o seu país.
O que houve de David Webb a Jason Bourne? Arrependimento pelas vidas sacrificadas? Ou mudança de perspectiva sobre o que é o discurso nacionalista dos EUA? O filme evidencia como o jogo pelo poder que é o motivador das ações da CIA. Políticos, jornalistas, famílias assassinadas. Ninguém que ameaçasse vidas americanas.
E repito a pergunta: quem é Jason Bourne? Agora, detentor de presente e passado, Bourne está carente de uma identidade. Esse é o caso de milhões de pessoas no mundo inteiro, que submetidas à dominação, exploração, miséria, não são reconhecidas na vida social padrão vendidas pelos mesmos filmes norte-americanas, no American Way of Life. O entrechoque dos interesses nacionais, em geral, costumam facilitar o nosso posicionamento na vida social, nos dão uma referência. "Sou brasileiro e odeio argentino", "sou americano e acho os muçulmanos seres inferiores".
Jason Bourne, quando David Webb, esteve imerso nisto. Quando Jason Bourne, sem história e referência, pode questionar isso. E qual será a síntese disto? Agora que superado David Webb, que seu ciclo de questionamentos como Jason o levou a superar a cegueira do estadunidense comum, e agora? Quem será Jason Bourne?

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Contas do Império : "Relações comerciais Brasil América do Sul e o processo de primarização das exportações desde o Plano Real"



Por Thiago Machado           


 As alterações no paradigma do crescimento das nações, baseado numa ideologia mais liberalizante e mudanças no paradigma tecnológico, foram acompanhadas por uma maior integração mundial, em termos comerciais e de comunicação. Essa integração impactou e impacta, diretamente a cultura e as características de consumo da população mundial, junto de uma forte integração financeira. Um dos aspectos desse fenômeno é a criação de uma serie de blocos econômicos construindo redes comerciais em diversas regiões, ou blocos econômicos, como o caso da União Européia, do Mercosul, da NAFTA, entre tantos outros.
            Para o caso brasileiro, essas transformações trouxeram alguns impactos para o comercio exterior nacional. A maior integração do mercado sul-americano ampliou fortemente as exportações brasileiras para a região sul americana, onde de 1990 a 1997 as exportações brasileiras para esta região cresceram em termos reais[1], 284,96% em contrapartida, as exportações cresceram em média, nesse mesmo período, apenas 39,88%.
            Esse crescimento das exportações para a América do Sul escondeu uma característica do comercio exterior nacional da década de 90. Como as exportações brasileiras para essa região são marcadas por uma forte composição de produtos manufaturados, isto escondeu o fato, de as exportações estarem sofrendo um processo de primarização, ou especialização regressiva, desde o início da década de 90 e não apenas na primeira década do século XXI, como vêem sendo discutido por diversos economistas atualmente.
A participação das exportações brasileiras de manufaturados, retirando-se a América do Sul em média de 1990 a 1993 era de 52,73%. Contudo, o período de 1994 a 1998, essa relação passa a ser em média de 46,4%, chegando ao ponto de mínimo em 1997, com 43,56%, que passa a melhorar daí em diante até os anos 2000, chegando a 50,89%. Em contrapartida, quando se olha apenas à composição das exportações totais, essa relação é extremamente minimizada. Pois, a média da composição das exportações de bens manufaturados de 1990 a 1993 é de 58,4% e a média de 1994 a 1998 é de 56,75%, ou seja, uma queda relativa de apenas 1,65%, em contrapartida, retirando-se o comércio Sul Americano, a perda relativa dos produtos manufaturados é de 6,33%.   

. A maior competitividade da indústria nacional, em relação ao restante da América do Sul, ocasiona essa “deturpação estatística”. Mas, se comparar com o restante da economia mundial, a mudança no paradigma de desenvolvimento nacional trouxe consigo uma forte perda de competitividade do setor industrial, devido a forte alteração dos preços relativos com a liberalização econômica, iniciada na década de 90. Um outro elemento que auxiliou as exportações brasileiras é o fato do processo de liberalização econômica, com forte valorização cambial, ter sido um fator em comum a todos os países da América Latina, sobre valorizando o câmbio de todos os países da região, não alterando de forma tão drástica a competitividade da indústria nacional frente às demais indústrias da região. 
Contudo, apesar da forte demanda desses países por produtos manufaturados brasileiros, o mercado Sul Americano ainda possui grande potencialidade de crescimento do comercio intra-regional, caso seja feita uma estratégia bem sucedida de integração regional e desenvolvimento industrial. Pois, se comparar a participação do comercio intra-regional de outras regiões, que representam, em relação ao seu comercio exterior total, as seguintes percentagens: 68% na Ásia, 60% na União Européia e 55% na Nafta, o Mercosul e a América do Sul, possuem respectivamente apenas 25% e 10%, de acordo com dados de para o ano de 2000.
América do Sul tem um grande problema, que são as grandes semelhanças em sua produção, impedindo maior nível de integração. Isso influencia na reduzida demanda de produtos regionais por parte do Brasil, que possui uma indústria mais desenvolvida e diversificada. Competindo em diversos nichos com as indústrias da região, gerando problemas para as demais economias locais, já que, o Brasil constantemente apresenta superávits na Balança Comercial regional.
Consequentemente, o processo de primarização das exportações não é um fenômeno apenas do século XXI, devido ao crescente centro gravitacional da economia mundial, o Leste asiático, com pólo na China, mas um fenômeno que tem ocorrido desde o processo de liberalização econômica, com destaque para ruptura do Plano Real. Conforme foi defendido anteriormente, apesar da forte mudança dos preços relativos dos bens comercializáveis, nossa indústria se viu numa relação razoavelmente estável, em relação ao comercio sul-americano, já que, a região como um todo passou por um forte processo de liberalização econômica, com forte apreciação cambial.
Poderia se criticar tal visão, afirmando que mesmo que os países sul-americanos tenham tido em comum uma forte valorização cambial, os mesmos poderiam ter sua demanda atendida por produtos manufaturados, pelo restante do mundo. Toda via, a integração regional foi acompanha por certo nivelamento das tarifas alfandegárias da região, alem de maiores facilidades legais facilitando seu comercio, “em detrimento” ao resto do mundo.




[1] Deflacionado pelo IPC norte americano; fonte: Bureau of Labor Statisc BLS

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Perigo de uma única história

O Imperialismo, o discurso ocidental, nacionalismo, preconceito, a beleza dialética da cultura "africana", dominação cultural. Escolha o seu debate após assistir este vídeo. Uma recomendação de Suellen Lannes que repasso aos leitores.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Governo e o Brasil do século XXI

A publicação aqui no Sinal Preto dos dois artigos anteriores tem um propósito que é de ilustrar e embasar o balanço a ser feito das condições em que chegamos no Brasil do século XXI e os desafios que há pela frente na busca de uma nação com a cara dos trabalhadores e do povo.
O primeiro dá um panorama da luta do movimento sindical e o segundo mapeia o Brasil na perspectiva dos comunistas. Em ambos, os receios e dúvidas quanto ao que esperar de Dilma, e vale frisar que ambos compõem a grande base popular do governo.
Nestes quase dois meses de blog, tratamos muito da trajetória de nosso país e das encruzilhadas pelas quais passaram a nossa sociedade, para alguns, a nossa nação. Desde nosso amigo Quaresma, a vimos ser moldada sob todo patrimônio político-filosófico do liberalismo, que também foi muito combatido, ora substituído pelo Estado forte e também aprisionador dos movimentos populares no varguismo, ora ganhando força novamente, e assim foi construído nosso Estado Nacional e junto com ele o nosso capitalismo.
Hoje, por incrível que pareça, o Brasil consegue combinar os dois, com um Estado relativamente forte e promotor de avanços sociais, porém com um Banco Central autônomo, com uma mídia monopolista, com fortes poderes oligárquicos rurais, com também grande monopólio da terra ( o que faria nosso amigo Major Quaresma ter um fim ainda mais triste, se pudesse prever seu país cem anos depois). Isto sem falar nos aspectos estritamente políticos, totalmente fundamentado nos valores da democracia liberal, como a representação constituída pelo sufrágio universal, a individualização da sociedade, tudo isto agravado pela não-construção de uma identidade cultural nacional, que faz nosso povo se sentir sem lugar na História.
E que parte tem o PT e o atual campo político do governo nesta História? Esta é a pergunta que se fazem os movimentos sociais neste início de Governo Dilma. Sem dúvida, é uma resposta que nos exige grande sabedoria dialética!
Nestes anos vimos o nosso país crescer enormemente, atrair investimos ao mesmo tempo que desenvolver o seu próprio mercado interno, produzir tecnologia, investir em programas que contemplem a defesa nacional, expandir a Universidade pública, selar grandes acordos internacionais, combater a pobreza, conquistar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Demos passos que em cem anos de República não haviam sido dados. Nas descrições de Benedict Anderson, demos grandes passos na construção e invenção de nossa nação. E é sob esta construção política moderna que o campo do Governo Lula construiu sua base social, o nacionalismo. O Brasil começou a experimentar esta sensação de ser nacionalista. No entanto, a reforma agrária não anda, assim como outras reformas propagandeadas por José Reinaldo, o salário mínimo aumenta conforme a vontade do patrão e a jornada de trabalho não reduz.
Assim, se a nação é algo datado e essencialmente burguês como parece dizer Anderson, a nação brasileira de Lula pode nos levar a apenas um capitalismo forte, como tantos outros por aí. Digo "pode", porque o que este governo tem de diferente dos outros é carregar consigo as expectativas de nosso povo e lhe levantar a auto-estima. E estas longínquas expectativas de libertação, de descolonização, hoje parecem ganhar concretude.
Falta agora estes populares se libertarem dos valores liberais e se entenderem como sujeito político. Sujeito político que tem cultura, história e que é o único responsável por sua própria libertação, como nos atenta o camarada Zé Reinaldo, do PCdoB. Só assim construiremos a República do Major Quaresma, e não a nação de Benedict Anderson. Um povo que seja comandado por Silvas, Souzas, Ferreiras, Pereiras, e nao por Sarney`s, ACM`s, Maia`s, Marinho`s, Mendes`, etc.

O Partido Comunista e as mudanças estruturais

Trecho de Artigo publicado no Portal Vermelho no dia 01/02/2011

 

Alcançam repercussão enormemente positiva as resoluções da Comissão Política Nacional, realizada na última sexta-feira (28). Curiosamente, não saiu uma resolução propriamente dita, mas uma notícia sobre a orientação política adotada. Isto dá a dimensão do alcance que têm e do interesse que despertam os debates sobre os rumos do país e os posicionamentos da direção comunista sobre as tarefas políticas, a tática, a perspectiva estratégica e o fortalecimento do Partido.

Por José Reinaldo Carvalho*


É uma boa indicação do empenho que as instâncias dirigentes executivas devem dedicar à preparação dos documentos a serem submetidos à apreciação e deliberação do Comitê Central, em sua 6ª reunião a realizar-se em 19 e 20 de março.

Vale a pena debruçar-se no porquê da repercussão positiva nas fileiras do Partido suscitada pela Comissão Política.

A direção do PCdoB passou em revista algumas questões cruciais da atual luta política em curso no país. A pergunta que não calou na Comissão Política e que está a exigir resposta tão sonora quanto foi formulada, não só pelos comunistas, mas também pelo governo, o PT, os demais partidos de esquerda da coalizão, o movimento de massas, é se o Brasil vai efetivamente mudar, avançar, ou, no que se refere à orientação macroeconômica, ao aprofundamento das políticas sociais e à adoção de uma diretriz de realizar reformas estruturais democráticas, permanecerá na mesmice de considerar primeiramente a conciliação com as classes dominantes. É indispensável dar passos efetivos, mais ousados, para além da retórica, no sentido de construir uma nação democrática, soberana e socialmente avançada.

São elevadas as expectativas do povo brasileiro, suscitadas na campanha eleitoral pelo ex-presidente Lula, pela então candidata e hoje presidente Dilma e pelos partidos que lhe deram sustentação, entre estes o nosso Partido, que sempre estabelece os necessários nexos entre a tática e a estratégia, os objetivos imediatos e os de longo prazo, os compromissos atuais e a missão histórica.

O partido tem feito apostas elevadas no curso político e transmitido ao povo brasileiro uma mensagem de confiança e otimismo. A própria realização do programa partidário aprovado no Congresso em 2009, calcado na correlação de forças presente, estava condicionada à vitória eleitoral. A interrupção do ciclo progressista aberto com a eleição de Lula em 2002 representaria para o país e as forças populares um retrocesso de tal ordem que implicaria redefinições profundas nos terrenos estratégico e tático.

Há um conjunto de preocupações levantadas por todos os que intervieram na reunião quanto a duas ordens de problemas.

Primeiramente, sobre as opções feitas neste início de mandato pela equipe econômica da presidente. Uma manifesta inclinação para o ajuste fiscal, para priorizar o pagamento da dívida através de maiores concessões à oligarquia monopolista-financeira contraria frontalmente os interesses das massas trabalhadoras e populares. Simbolicamente, esta disjuntiva aparece na decisão de aumentar a taxa de juros, velho e surrado método de “combater a inflação”, que vem dos imemoriais e tristes tempos de Pedro Malan, ministro da Fazenda de FHC, e chegou à nefasta gestão da dupla Antônio Palocci-Henrique Meirelles na era Lula. A Comissão Politica firmou posição unânime contra essa orientação: “O PCdoB está em oposição a essa política”, sintetizou o presidente Renato Rabelo.

Aparece ainda na postura governamental em face da batalha pelo aumento do salário mínimo. A equipe econômica fechou-se em copas em torno de uma estreita faixa entre 540 e 545 reais. As centrais sindicais, inclusive a governista e petista CUT, e a CTB, onde protagonizam os sindicalistas do PCdoB, do PSB e os independentes, insistem nos 580 reais. Não é uma briga de torcidas, mas um conflito distributivo, em última instância, de classe. Argumenta-se que não se pode aumentar o salário mínimo para não incrementar o déficit público e o da Previdência, mas fazem-se cedências fiscais, financeiras e de todo tipo à grande burguesia e ao capital estrangeiro. No mínimo, pavimenta-se o caminho para a recessão, ou para um crescimento medíocre, como assinalaram vários dirigentes comunistas.

Reformas estruturais democráticas

A outra pergunta que não calou, não quer e não vai calar é se o Brasil vai ou não vai avançar na realização das reformas estruturais democráticas.

Chama a atenção que, sem exceção, os dirigentes partidários que têm responsabilidades de governo, parlamentares, representantes no movimento social e autoridades partidárias internas foram unânimes em constatar que a realização de reformas estruturais não está no escopo dos debates no parlamento, nos ministérios e na orientação geral do governo. Está no horizonte dos comunistas, de alguns dirigentes e parlamentares de outros partidos de esquerda e do movimento social, mas não no do partido hegemônico nem do governo.

E, no entanto, nada é mais necessário para o Brasil avançar no rumo da democracia, da soberania nacional e da edificação de uma sociedade socialmente justa do que a realização das reformas estruturais democráticas. Na convicção dos comunistas, esta necessidade está posta, para não retroceder no tempo ao ponto de sermos qualificados como jurássicos, desde 1988, quando o saudoso camarada Amazonas disse no 7º Congresso que o Brasil vivia uma encruzilhada histórica, para cuja saída eram necessárias rupturas revolucionárias. A vida apresentou novidades, os dois governos Lula, o governo Dilma, a oportunidade histórica para promover tais avanços.

Para rememorar, as reformas democráticas são: reforma política democrática; reforma agrária; reforma urbana; reforma nos sistemas educacional e de saúde; reforma tributária e democratização dos meios de comunicação. Sua realização não virá por geração espontânea, nem será fruto apenas da ação governamental. Depende muito da luta do povo, dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda.


Frente política e social

Por isso avulta, com maior importância do que antes, a questão de construir o sujeito político que assumirá a liderança de mudanças desta envergadura.

Esta construção tem dois elos indissoluvelmente ligados: uma frente política e social, com base popular, constituição ampla e política de esquerda, o que significa uma plataforma anti-imperialista, popular e democrática. O esquema que tem funcionado até aqui – hegemonia do campo majoritário petista numa coalizão fluida em que pontificam até partidos de centro-direita – tem-se revelado insuficiente para promover e realizar transformações estruturais na sociedade.

Construir um sujeito político com as características de frente política e social, de movimento democrático-popular anti-imperialista é tarefa de enorme envergadura, de largo fôlego e prazo dilatado, para cujo êxito seria necessário empenhar esforços desde já. Não há modelos nacionais nem estrangeiros a seguir. O próprio curso da luta definirá suas formas. Mas é preciso dar os primeiros passos nessa direção.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tim Maia: a música negra tupiniquim

Mais uma breve homenagem a este grande da música. Admirador de seu talento desde a infância, não sabia andar no carro sem que não houvesse Tim Maia no toca-fitas. Assim como eu, Tim Maia embalou diversas gerações e até hoje seus sucessos são tocados por aí com um quê de atualidade.
Música que nos remete ao soul americano, a black music em geral, o segredo do sucesso de Tim Maia sem dúvida está na capacidade de combinar estes ritmos com lindas melodias da melhor música tupiniquim,e letras com temas, em geral, de amor, além da voz insuperável e uma figura extremamente simpática. Tudo isto o fez ser um dos cantores mais populares do Brasil.
A seguir, uma das músicas que eu smepre fazia repetir no toca-fitas, Festa de Santo Reis:

domingo, 16 de janeiro de 2011

Comunidades Imaginadas: A América e O Imperialismo

O artigo "Nações. Busca Incessante ou Comunidade Imaginada?" publicado anteriormente propunha um diálogo com o livro "Comunidades Imaginadas" de Benedict Anderson, em especial com os capítulos "Raízes Culturais" e "Origens da Consciência Nacional". Seguimos aqui esta série dissecando o autor e a interessante perspectiva acerca do que chamamos de "Nação", agora com os capítulos "Pioneiros Crioulos" e "Imperialismo e nacionalismo oficiais".
A fim de entender o discurso nacionalista feito pelos setores da esquerda e pelas classes dominadas, o leitor poderia sair decepcionado destes capítulos. Apenas se não desse atenção para um problema levantado pelo autor mas que ele mesmo não dedica muita atenção.
Em "Pioneiros Crioulos", o autor entende o nacionalismo desenvolvido na América como inovador, haja vista que este discurso ainda não havia se desenvolvido plenamente no Velho Continente. Para ele, antes do surgimento dos "déspotas esclarecidos" europeus. O caráter fragmentado da admnistração imperial espanhola teria conduzido os crioulos (integrates da elite colonial descendentes de espanhóis nascidos na América) a desenvolver o discurso nacionalista antes mesmo do que houve na Europa. Os privilégios dos legítimos espanhóis frente aos crioulos os levariam a estimular a consciência nacional no continente.
Curiosamente, o Império Espanhol, apesar de admitir em todo o seu território apenas um idioma, não haveria criado uma consciência nacional em todo o território. A condição política fragmentada da colônia fez surgir diversos Estados Nacionais , movimento que teria ainda um caráter elitista, excluindo índios e escravos africanos. Benedict Anderson afirma que este aspecto teria sido um impecilho ainda para Simon Bolívar.
Claramente, Anderson se reaproxima da idéia de "invenção da nação" que ele combate no início do livro ao caracterizar o surgimento da comunidade imaginada nação. Não sendo o idioma um aspecto fundamental para a consolidação das identidades nacionais, nem havendo uma comunidade religiosa que se amparasse num idioma sacralizado e portanto, não havendo forte influência de um capitalismo editorial no discurso nacionalista, o autor opta exclusivamente pelo aspecto político para entender as nações americanas. Os Crioulos, fortalecidos enquanto ator político, construiram o discurso nacionalista a fim de legitimar seu poder enquanto classe social. Assim, os aspectos culturais americanos são postos de lado, e nem sequer há uma investigação da possibilidade do discurso de Bolívar e a base social que este pensamento representava.
Esta análise nos deixa duas possibilidades: ou o fato de determinado território com autoridade política estabelecida ser dominado por um Império em si estimula o discurso nacionalista pelos dominados; ou o nacionalismo americano carrega o legado cultural europeu. Vale destacar que Anderson nega esta perspectiva, apesar de esta ser a mais possível. A primeira, no entanto, nos levaria a um determinismo histórico.
Mas voltando a vaca fria, ao narrar o fortalecimento dos Estados Nacionais no pós-Revolução Francesa, Anderson faz uma diferenciação da nação como surgimento espontâneo popular anterior com este que seria a "cópia pirata". Assim, ele mostra o movimento feito pelos déspotas esclarecidos em reação ao clima instaurado na Europa pela Revolução Francesa. A fim de manter seus Impérios, as aristocracias adotavam medidas modernizantes, porém com a mesma estrutura de dominação. Seriam elas a criação dos exércitos regulares, a oficialização dos idiomas em reinos que abrigavam diversos idiomas e o discurso da expansão imperial. Assim o Japão, por exemplo, destituiu o poder dos samurais e criou a identidade nacional com campanhas bélicas de sucesso.
Nesta narrativa que aparece um detalhe para o qual o leitor deve ter atenção. Anderson dá uma série de exemplos onde houve resistência a estes movimentos imperialistas, que poderiam ser embriões de um nacionalismo de viés popular.
Ele caracteriza o levante de 1905 na Rússia como uma resistência a russificação do reino Romanov. Para o autor, o levante dos operários e camponeses contra a aristocracia tinha este embasamento. Narra também a greve de 1910 dos comerciantes chineses em Bangcoc contra as autoridades do Sião. A esta ele qualifica como nascida de um "republicanismo popular".
Na lógica de Anderson, esta análise assemelha-se a que ele faz da América. A dominação imperial constrói a sua negação, que por mais que não seja consciente em todos os casos, aponta para a possibilidade de um nacionalismo revolucionário.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nação. Busca Incessante ou Comunidade Imaginada?

Benedict Anderson, em seu livro " Comunidades Imaginadas", tece uma crítica às interpretações da questão da nação e do nacionalismo que os enxergam como produtos da " invenção" de determinados atores sociais. Para ele, a "nação" é uma "comunidade política imaginada" carregada de soberania e " intrinsecamente limitada". A qualificando como a comunidade imaginada moderna, Anderson se propõe a uma historização dos tipos de comunidades anteriores, que para ele são todas imaginadas e , que por isso, não se diferenciariam pelo contraponto " falsidade/autenticidade" como nas interpretações da " invenção" . Seriam aquelas: a "comunidade religiosa" e o "reino dinástico".
Estas comunidades extrapolavam as noções de territorialidade e temporalidade. No caso das comunidades religiosas, os símbolos dariam sentido a uma linguagem sagrada e a um "poder supraterreno", de forma que povos que utilizariam até mesmo idiomas diferentes se veriam na mesma comunidade católica, muçulmana, judaica, etc.
Já o nacionalismo só é possível com o estabelecimento daquelas noções. Para ele, a nação é " a idéia de um organismo sociológico atravessando cronologicamente um tempo vazio e homogêneo" , ou seja, é um ente não-historicizado no discurso do nacionalismo, e, que neste sentido pode contruir a memória de uma nação ainda que em tempos onde não houvese identidade nacional.
Assim, a ascenção desta comunidade imaginada se dá com a queda do latim como língua oficial e com o crescimento do mercado editorial, que foi responsável pela massificação de publicações em línguas distintas. Estaria aí o embrião para um discurso de memória nacional, que respaldado no estabelecimento dos novos idiomas oficiais viria a os identificar com seus povos detentores. Esta análise, por mais que o autor não adentre estas matas embrenhadas, confere ao nacionalismo europeu um caráter burguês e capitalista.
Desta forma, é possível dizer que o discurso do nacionalismo e a construção dos Estados Nacionais é, em Anderson, eextremamente datado, por mais que ele permaneça vigente até hoje. Assim, os discursos nacionalistas contemporâneos nada mais são que um resgate deste período de estabelecimento da comunidade imaginada.
É importante colocar uma reflexão, no entanto. Por mais que se possa extrair isto do livro, o autor não entra na questão de classe abertamente, que na minha visão é evidente na construção de uma visão nacionalista. Talvez o faça deliberadamente para evitar a idéia de "invenção", o fato é que a investigação ao qual me proponho e que em muito se reproduz nos artigos deste blog, é a possibilidade da construção da nação em outro prisma, um discurso nacionalista essencialmente anti-imperialista e que viabilize a afirmação da cultura dos setores mais populares da sociedade. Será este o debate? Ou deveríamos nos debruçar na busca de nova comunidade imaginada? Fica a questão para a reflexão do leitor.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Lima Barreto, os militares e o positivismo

"-Mas vocês só falam em patriotismo? - fez Olga
 -Decerto. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer e desmoralizar a ação da autoridade constituída.
 -Deviam continuar a presenciar as prisões , as deportações, os fuzilamentos, toda série de violências que se vêm comentendo, aqui e no Sul?
 -Você, no fundo, é uma revoltosa- disse o doutor, fechando a discussão."

Lima Barreto, em seu livro "Triste fim de Policarpo Quaresma" , expõe uma visão pejorativa bastante definida dos militares e da ideologia instituída pelo governo do Marechal Floriano. Costuma caracterizá-los pelo positivismo, "ramo" do conhecimento humano que, talvez o inaugure enquanto ciência.
O positivismo é marcado pela imersão nos métodos experimentalistas, ou seja, só admite conhecimento ou teoria embasados em experiências, em averiguações, de modo que seja assim científico. O conhecimento, portanto, é possível enquanto uma projeção no pensamento do mundo tal como ele é "objetivamente". Isto levaria a uma forte relação de causalidade nas explicações dos fenômenos sociais.
Entendido isto podemos compreender melhor o discurso dos militares. Sendo eles os defensores dos interesses da Pátria, da ordem e do progresso, seus inimigos não podem ser senão, retrógrados, espiões, aliados dos estrangeiros portugueses, e mais a frente, russos. Não cabe nesta interpretação a possibilidade de outros atores sociais defenderem outro modelo de nação , balizada em outros alicerces. Não há contradição ou conflito de interesses na lógica positivista, muito menos dominação de classe.
Assim, os militares inspirados nas posições liberais norte-americanas deram rumo à construção da nação brasileira. A eliminação do trabalho escravo e a adoção do trabalho assalariado, o modelo econômico, o modelo político e o modelo cultural. Eram estes os pilares da Pátria Brasil, e aquele que viesse a reclamar a situação dos negros abolidos, o latifúndio improdutivo ou o resgate da nossa cultura indígena estaria na contramão. Escondidos atrás disto estariam os interesses hegemônicos das nossas elites oligárquicas e do imperialismo. Explica-se através disso a tara anti-comunista dos mesmos militares à época do Golpe de 64. "Brasil, ame-o ou deixe-o" expressa a mesma idéia.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Eu, tu, ele, Quaresma

Nosso Blog passou por um pequeno recesso. A visita de Long John ao continente americano foi razão para muitas tagarelices e novas histórias a serem contadas. Grande conhecedor das intrigas que movem o Velho Continente, John Silver é um curioso a respeito das tradições brasileiras. Recomendei-lhe um livro ao qual compartilho a experiência da leitura com vocês. É o “Triste Fim de Policarpo Quaresma” , de Lima Barreto. Feliz Ano Novo, e novidades virão no Blog!


Muito se ouve falar do Major Quaresma como um tolo, um anacrônico, uma caricatura. Pois ainda que caricaturado, muito há de se extrair do simpático major do início do século XX. Descrito como um homem sem vaidades, Policarpo Quaresma tinha apenas uma ambição: fazer do Brasil uma grande nação. Isso em si poderia não dizer nada, haja vista que sobre esse pretexto muitos se fizeram, inclusive as Forças Armadas. No entanto, o major, com seu apreço por tudo que é nacional, vive em dedicação integral em estudar o seu país a fim de resolver seus problemas e explorar suas riquezas da melhor forma.
Nesta aventura, nosso amigo vai em busca daquilo que é popular para afirmar a cultura nacional. Assim, vem a discutir aquilo que é da origem indígena e africana em contraposição ao estrangeirismo das elites brasileiras no tempo do Marechal Floriano. Neste propósito busca aprender a tocar o violão com o badalado artista da época, Ricardo Coração dos Outros, e se depara com o preconceito de seus pares para com as modinhas populares. Esta sua amizade, por sinal, é simbólica do tipo de construção identitária a qual buscava o Major.
Desenvolve suas manias, passa pelo hospício, vira agricultor a fim de desenvolver as terras brasileiras e termina pela opção política, onde embriagado por uma ingenuidade acaba por entrar em contradição consigo mesmo. Aí se contrapõem as visões de nacionalismo do governo e a de Quaresma.
É importante destacar a atualidade desta obra, tendo em vista que as mesmas questões ainda estão colocadas. Nosso povo, apesar de ver um crescimento econômico grande, ainda carece de se conhecer, de se afirmar e através disso construir sua identidade. Esta é a chave para termos uma nação forte com um povo livre, consciente de si. Do contrário, nosso nacionalismo só virá a distanciar-nos da nossa cultura e fazer crescer o poder político e econômico das nossas elites.
Quaresma nos é um ícone. Ainda que caricato, um ícone. Ele traz consigo as aspirações de nossas culturas populares, oprimidas e marginalizadas na formação de nossa nação. É nesse espírito que nós, estrangulados, porém amotinados, devemos nos inspirar.
Viva Policarpo Quaresma!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mayombe - Pepetela



A história contada pelo escritor angolano Pepetela tem seu foco em uma base guerrilheira do MPLA. Conforme se dá a narrativa, percebe-se a dificuldade que há na construção de uma identidade nacional num país de tamanha pluralidade étnica. Com o discurso da unidade nacional, o MPLA busca romper com o tribalismo, razão de guerras seculares entre as diversas comunidades que habitam aquela região da África. No entanto, até mesmo dentro do partido há obstáculos para esta noção nacional e anti-imperialista.
Essa são as observações de um leigo, mas para os entendedores do candomblé e da cultura africana, Mayombe tem muito mais a oferecer.




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Florestan Fernandes, Besouro e a cultura negra no Brasil

As discussões acerca do fortalecimento da nação estão em pauta no Brasil do século XXI. Isso certamente é inspirado nos grandes avanços políticos e econômicos da última década, em que  se eleva  a auto-estima do brasileiro, que vive melhor, que vê o seu país em posição relevante no cenário político internacional. No entanto, a construção de uma identidade nacional num país de dimensões continentais, de pluralidade étnica e cultural, coloca desafios que vão além da esfera econômica.
Ainda resiste no Brasil uma negação da nossa própria cultura, de forma que as características regionais, a cultura afro-brasileira, para dar alguns exemplos, sofrem de um preconceito institucionalizado, enquanto nos embebedamos de seriados da TV a cabo, filmes norte-americanos, coisas que em nada refletem as expectativas de nosso povo. Não há nação soberana que não valorize sua cultura, sua história.
Tratando mais especificamente do negro, é impressionante como parcela tão numerosa da nossa população tem sua cultura tão marginalizada e mistificada. Florestan Fernandes, em A integração do negro na sociedade de classes, vai buscar explicações no nosso processo histórico, desde o período abolicionista à consolidação da atividade burguesa no Brasil.
Para ele, o processo abolicionista teve um caráter nitidamente liberal, “inspirado na liberdade da pessoa humana”, porém sem nenhuma garantia da inserção do negro no mercado de trabalho,  o que decididamente caracterizava um projeto das elites de desenvolvimento do capital e valorização do trabalho assalariado, como característica intrínseca ao capitalismo. Este processo estava acompanhado também da substituição do negro pelo imigrante, mais acostumado com as relações de produção capitalista. Na frase do Ministro da Agricultura Antônio Prado explicar-se-ia a política econômica : “Imigração em larga escala, na mais larga escala possível”.
Há uma valorização da participação do negro neste processo por parte do autor, no entanto esta teria sido de forma alienada. Segundo ele, os negros sabiam o que não queriam, mas não eram capazes de, coletivamente, apresentar um projeto distinto de sociedade que os incluísse. Isso se dava em parte, pela grande repressão senhorial a qualquer forma de integração entre os escravos ou manifestação de solidariedade entre eles. Isso os teria privado de qualquer forma de organização social quando da Abolição.  Ou seja, além de evitar a organização dos negros para que eles viessem a se rebelar, os senhores também atacavam diretamente o contato com a religião, com sua cultura, com sua arte.
Isto está manifesto no filme Besouro, que trata da trajetória da capoeira.  Vista como coisa de malandro, marginal muitas vezes até hoje, a capoeira só foi legalizada meio século depois da Abolição. Além disto, o filme mostra as formas de repressão e cooptação bem à moda brasileira. Vale a pena assistir.