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quinta-feira, 24 de março de 2011

Ainda Tropa de Elite 2

Meus caros, discutir arte não é exatamente a minha praia – mas viva o motim intelectual! Me arrisco a receber as críticas inclusive de nosso marujo Lucas. Nada de novo, entretanto, mas não poderia perder a oportunidade de fazer essa reflexão abaixo, que venho pensando há tempos.










Por Tiago Magaldi

A apresentação do novo filme de Zé Padilha, continuação do primeiro sucesso de bilheteria estrelado por Wagner Moura, reacendeu a polêmica que havia se instalado em algumas partes do Rio acerca do suposto caráter fascista dos filmes. Logo depois da estréia do primeiro Tropa de Elite vi as opiniões se dividirem entre aqueles que achavam o filme claramente fascista e os outros, que viam nele uma crítica ao modelo – este sim, fascista – de segurança pública do estado do Rio de Janeiro cujo maior expoente simbólico era – e é – o BOPE. Claro, dessa divisão excluem-se aqueles que simplesmente assistiram ao filme pela garantia de diversão, indiferentes, conscientemente ou não, à influência que o filme porventura poderia ter tido sobre as suas opiniões sobre segurança pública. (Antes que tomem esta última frase por uma crítica aos que apenas buscam garantir a diversão do final de semana, digo que não se trata aqui de retomar a ladainha, muito dita hoje e que será, imagino, repetida ainda por muito tempo, que prega vivermos atualmente um tempo de decadência, em que ninguém pensa nada criticamente, etc.) Apesar de não fazer parte deste grupo, muitas vezes não faz mal uma certa indiferença aos enigmas que aparentemente existem por detrás das mais interessantes experiências pessoais – ao contrário de certas atitudes blasé que vemos por aí.
            O fato é que, dentre as pessoas que conheço instalou-se a tal polêmica quanto ao primeiro filme. É ou não é fascista? Capitão Nascimento é o herói ou o bandido? O filme é a sua glorificação ou condenação? Uns afirmavam que sim, que o filme era, em todos os sentidos, fascista. Outros, que não, que o filme se fez sangrento e chocante justamente para destacar a crítica àquele modelo. A estréia do segundo filme jogou água no chope daqueles que adotaram a crítica contundente ao filme, denunciando seu caráter fascista. Nele, o protagonista aparece mais reflexivo, ampliando seu campo de visão quanto ao jogo político no qual estaria inserido e a sua função como mero repressor da “bandidagem”. O filme inclusive termina com seu protagonista pleiteando o fim da Política Militar do Rio de Janeiro. Aparentemente, esse desfecho encerrou a questão. Mas não pra mim, ainda.
            Como estou tentando dar a entender, os dois parágrafos anteriores correspondem àqueles interessantes preâmbulos de documentos legais, geralmente tratados internacionais (ou os vergonhosos Atos Institucionais): o momento dos “considerandos” – sendo, aliás, a parte mais interessante desses documentos, pois condensam as verdadeiras motivações políticas dos trâmites burocráticos que virão a seguir. Bom, considerando toda a discussão até aqui, notamos que seus interlocutores buscam, em suma, definir o que o filme é (ou não é), buscando cada qual, para isso, os momentos do filme mais interessantes para embasar sua opinião. Pois é nesse ponto que estão errados.
            Durante uma das inúmeras discussões que presenciei sobre o filme escutei o argumento que me daria a idéia de escrever esse texto; em suma, foi dito: “o filme é uma crítica à violência policial, as pessoas que o assistiram é que não perceberam”. Pois é. Isso me levou a pensar: então, será que o filme pode efetivamente ser assim ou assado? Crítica ou apologia? Um filme é, materialmente, pouco mais que uma seqüência de imagens e sons. Isso é o que ele é. Mas sobre isso se constroem interpretações. Então um filme será aquilo que cada um interpretar que ele seja. Naturalmente, não se trata de uma seqüência aleatória de imagens e sons: os profissionais que fazem o filme detém, teoricamente, o controle de quase tudo aquilo que será apresentado, ao final, ao público. Mas eles não possuem um controle determinante das interpretações a serem feitas a partir do filme, sejam essas conscientes ou não – isso em teoria.
            (Faço uso desse subterfúgio - “em teoria” - não por temer a fraqueza da minha argumentação e deixar uma rota de fuga em aberto – afinal de contas, essa é uma opinião absolutamente despretensiosa – mas por ser fácil notar que algumas interpretações podem hegemonizar qualquer discussão, tornando-se fato consumado: o filme será aquilo que diz essa interpretação. Assim, por exemplo, Arnaldo Jabor pôde estrear seu A suprema felicidade e, ato contínuo, defendê-lo das pesadas críticas que recebeu n’O Globo, buscando hegemonizar sua interpretação – será que ele aprovaria semelhante postura ética de outrem, aliás? Me pareceu um tanto “estalinista” da parte de tão honrado cidadão...)    
            Não me parece sensato, obviamente, ignorar o fio condutor tecido pelos próprios realizadores do filme. É claro que a forma como o filme foi montado restringe as possibilidades de interpretação, estabelecendo certos limites; mas admitir a posição privilegiada da interpretação dada por aqueles à sua obra não significa admitir também que essa interpretação será naturalmente transplantada para a consciência do público. Entre a intenção do diretor e o público existem mais coisas do que supõe nossa... etc etc. Ainda mais em se tratando de filmes do “circuitão”, com vasto público, naturalmente heterogêneo.
            Resumindo: se se pretende discutir a influência de qualquer filme é inócuo debater sobre o que filme é, mas sim o que queria o diretor e seus realizadores a princípio e quais foram as interpretações dadas à obra.
            E, na minha humilde opinião, indiferentemente àqueles que viram no Capitão Nascimento uma crítica feroz à política de segurança no Rio de Janeiro, ele se tornou um aclamado herói nacional, um exemplo a ser seguido. Infelizmente.

sexta-feira, 11 de março de 2011

"Se você trabalha com homens deve saber formá-los, só assim será possível utilizar seus recursos" - Uma homenagema a Akira Kurosawa e ao povo japonês



                                                  Neste dia de tragédia no Japão, uma homenagem ao
                                               grande cineasta Akira Kurosawa,  o que é ao mesmo
                                                              tempo, homenagear o povo japonês.



Por Allysson Lemos

Mesmo tendo assistido a apenas três filmes seus, me senti impelido a escrever sobre este gênio do cinema, que sempre em cenários de grande beleza nos traz de forma lírica o conhecimento de diversos episódios das tradições japonesas.
Dersu Urzala foi para mim um grande aprendizado, contrapondo nossa condição de homem ocidental na figura do general russo com a do homem da floresta chinês, nos pondo o exercício de desnaturalizar uma série de hábitos que para nós aparecem como necessidades primárias. Tudo isso numa narrativa diferenciada, sem grandes momentos de ação ou suspense, apenas nos apresentando as curiosidades de um metafórico encontro entre dois mundos.
 "Sonhos" , também de grande beleza, nos narra diversos contos, aparentemente desconexos, mas que têm o intuito de nos narrar diferentes episódios da história e cultura do Japão. Aparecem ali a estrutura hierárquica da sociedade japonesa , o medo da bomba atômica, a crítica à guerra e o grande dilema da modernização japonesa.  E, segundo à crítica, cada conto foi realmente um sonho de Kurosawa, que transformado em cinema, transformam-se numa dramatização da história japonesa.
Isso para não falar de "Ran", ou dos tradicionais filmes de samurai que universalizaram este ícone japonês. A seguir, um trecho de "Sonhos" :


domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Trilogia Bourne




Por Allysson Lemos


Quem não viu os três filmes "A Identidade Bourne", "A Supremacia Bourne" e o "Ultimato Bourne" não sabe o que está perdendo. Suspense estadunidense típico, com carros andando na contramão, subindo escadas, tiro, lutas e ação o tempo inteiro com uma trama a se desenrolar, a trilogia é um verdadeiro quebra-cabeça e prende a atenção do espectador. Além disso, os filmes nos abrem a possibilidade de diversas reflexões, à medida que Jason Bourne vai descobrindo o seu passado esquecido, de forma que se a trilogia tivesse um nome, seria a do primeiro filme: "A Identidade Bourne".
Quem é Jason Bourne? Esta é a pergunta. Suas incríveis habilidades de luta, fuga, percepção espacial e a constante perseguição que sofre já o levam a sérios questionamentos. Quando se descobre um assassino da CIA, o personagem de Matt Damon entra numa grande autocrítica moral.
Mas a pergunta é: por quê? Por que um convicto assassino da CIA, treinado para servir os interesses norteamericanos, ao perder a memória viria a questionar isso tudo? O espectador poderia imaginar que a condição de bom ou mau é uma questão de circunstâncias. O fato é que Jason tem uma mudança de perspectiva com a perda da memória e segue em busca de seu passado.
Com a morte de sua companheira no segundo filme, Jason pára de fugir e vai atrás dos podres da CIA que revelarão sua vida e sua atual condição de perseguido. Descobre os assassinatos que executou e vai trilhando o caminho até chegar ao projeto que participou que lhe causou a amnésia. Bourne, então David Webb, por sua própria vontade, aderiu ao projeto Blackbriar a fim de "salvar vidas americanas" e defender o seu país.
O que houve de David Webb a Jason Bourne? Arrependimento pelas vidas sacrificadas? Ou mudança de perspectiva sobre o que é o discurso nacionalista dos EUA? O filme evidencia como o jogo pelo poder que é o motivador das ações da CIA. Políticos, jornalistas, famílias assassinadas. Ninguém que ameaçasse vidas americanas.
E repito a pergunta: quem é Jason Bourne? Agora, detentor de presente e passado, Bourne está carente de uma identidade. Esse é o caso de milhões de pessoas no mundo inteiro, que submetidas à dominação, exploração, miséria, não são reconhecidas na vida social padrão vendidas pelos mesmos filmes norte-americanas, no American Way of Life. O entrechoque dos interesses nacionais, em geral, costumam facilitar o nosso posicionamento na vida social, nos dão uma referência. "Sou brasileiro e odeio argentino", "sou americano e acho os muçulmanos seres inferiores".
Jason Bourne, quando David Webb, esteve imerso nisto. Quando Jason Bourne, sem história e referência, pode questionar isso. E qual será a síntese disto? Agora que superado David Webb, que seu ciclo de questionamentos como Jason o levou a superar a cegueira do estadunidense comum, e agora? Quem será Jason Bourne?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma Crítica de Esquerda a "Zeitgeist"


O documentário "Zeitgeist" é um vídeo merecedor de ser assistido. Faz importante denúncia do imperialismo e todo o seu aparato alienante. A religião, a mídia, e os governos são desmascarados como donos da verdade, o que lhe confere um caráter contra-hegemônico.
No entanto, a hipótese do filme é notadamente idealista, marcada por alto teor conspiratório. O filme traça a história do mundo ocidental protagonizada por pequenos grupos, por aqueles que "estão nos bastidores". Estes têm um plano para o mundo e se utilizam de "mentiras" para manipular o povo e manter seu poder. Assim o é no episódio de 11 de Setembro, na Guerra do Vietnã e na Segunda Guerra ou até mesmo na existência de Jesus Cristo.
Ao tratar do personagem bíblico, Zeitgeist descreve como existe uma racionalidade nas crenças religiosas e como existem equivalentes a Jesus, Moisés e eventos da Bíblia em outras culturas. Isso os leva a péssima conclusão de que o cristianismo foi algo inventado pelas elites romanas como uma forma de manobrar o povo. Ora, sabemos da relação intrínseca entre Estado e religião na era medieval, mas é de um reducionismo barato dizer que uma moral milenar que rege a vida de tantos no mundo tenha sido criada em algum gabinete. Um trabalho de investigação de como estas diferentes culturas se relacionaram e originaram mitos semelhantes seria muito mais interessante e prudente.
Quando o tema são as guerras, tudo é culpa da família Rockfeller e do Federal Reserve. É justo considerar como é didática a forma de explicar a relação entre poder econômico e poder político do documentário. Neste caso é ainda mais interessante pelo fato de que o Federal Reserve é um Banco Central privado e garante o monopólio através do discurso da livre concorrência. No entanto, quando o documentário trata do desenvolvimento do capital o faz apenas no aspecto financeiro. A classe trabalhadora só aparece para ser a devedora nas grandes crises promovidas pela taxação do papel-moeda, que é feita pelo banco central. Ainda quando trata da política de guerra, Zeitgeist só fala da emissão de dinheiro, ignorando a produção armamentícia.
No geral, trata-se de uma oposição entre governantes e governados, e não se apresenta uma solução estrutural, o que pode levar a uma visão anarquista da política. Para mim, a solução não está escrita em "Imagine", "Revolution" ou Jimi Hendrix, como ele chega a apontar. Mas que a vida social não seja movida pelos interesses do mercado ou pelas tendências do capital, mas por mobilização popular, e isto só é possível com o poder dos trabalhadores.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Tempos de Paz



Belo filme! Defrontam-se o ator polonês (Dan Stulbak) e o cara da alfândega brasileira (Tony Ramos). Neste diálogo resgatam-se lembranças, que por mais que sejam de vivências distintas, de compreensões distintas do mundo, ganham ares de universalidade. Por mais que o desembaraço possa resultar numa solução maniqueísta, o filme sugere muitos outros debates.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Keynes vs. Hayek

E se as divergências entre os economistas capitalistas fossem parar numa batalha de hip hop? Divirtam-se com a batalha entre Keynes e Hayek. O vencedor encara Karl Marx