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domingo, 25 de março de 2012

A importância do desenvolvimento tecnológico: Crítica à situação do Brasil


 


Acredito que exista um censo comum, que diz que o desenvolvimento tecnológico é fundamental para o desenvolvimento econômico de um país, ou uma nação. No entanto, é facilmente perceptível a falta de inovação industrial e tecnológica no Brasil, ou uma melhora na posição do ensino superior, que apesar de nossa economia se configurar cada vez mais entre as principais economias do mundo, não possui sequer uma universidade entre as 100 melhores do mundo.


Apesar de tudo isso, existe uma forte percepção nacional de melhora na qualidade de vida (o que realmente ocorreu) e que o Brasil veem sofrendo um processo de desenvolvimento econômico. Contudo, o que realmente ocorreu ao longo dessa ultima década e para melhor responder isso, como podemos definir desenvolvimento econômico?

Como aumento da renda? Melhora na qualidade de vida? Desenvolvimento de novas tecnologias? Melhora na educação? Acredito que cada um desses itens, se refere a alguns aspectos que implicam e/ou caracterizam o desenvolvimento econômico de uma nação. Mas, de que forma pode-se trazer uma elevação da renda nacional de forma constante e consistente, para um real desenvolvimento econômico?

Nesse instante, gostaria de citar Schumpeter. Ele divide a economia em setores estáticos e dinâmicos. O primeiro opera de forma constante, sem substancias transformações qualitativa, com quase somente, incremento quantitativo na estrutura produtiva. O segundo se refere a transformações qualitativas na estrutura de produção e consumo. De acordo com sua definição, o “Desenvolvimento Econômico” esta atrelado a transformações qualitativas na estrutura de produção, enquanto “Crescimento Econômico”, esta ligado a expansão quantitativa, sem significativas mudanças qualitativas.

Essa distinção se faz necessária, porque a elevação da renda per capita de um país esta ligada a capacidade de aumento de produção, que, por conseguinte, esta ligada a um mercado consumidor em potencial para tal produto e, além disso, também esta atrelada ao preço relativo desses produtos no mercado mundial. O aumento da produção, associado com a dinâmica de preços desses produtos, irão determinar a evolução da renda per-capita nacional (que é um bom indicador de desenvolvimento econômico, mas longe de ser o único).

A geração de novas tecnologias possibilitará o descobrimento de todo um novo mercado consumidor, pode-se utilizar como exemplo, o caso dos celulares e da indústria de informática da década de 90, que revolucionaram a economia e criou todo um novo mercado. Quando se gera uma nova tecnologia como essa, o mercado potencial é tremendo e a capacidade de produção é extremamente limitada, inicialmente, isto cria pressões pelo lado da demanda pressionando a pratica de preços mais elevados, associado com forte potencial de mercado consumidor, aumentando assim a renda nacional. Agora, olhando para produtos, como as commodities (produtos básicos, como arroz, minério de ferro, soja entre outros), a demanda por esses bens já esta razoavelmente bem atendida. Pois o consumo de arroz, por exemplo, não sofrerá bruscas mudanças, porque seus vetores de crescimento são o aumento populacional e marginalmente a melhora dos padrões de alimentação da população. Tais características da estrutura de demanda e oferta fazem com que o preço relativo desses produtos, no mercado mundial, seja depreciado, associado a isto, tem se um pequeno crescimento do mercado desse produto, sendo seu crescimento, em termos de renda, inferior ao crescimento da renda mundial. O exato oposto ocorre com produtos mais intensivos em tecnologia.

A experiência da economia mundial traz esse fato, as importações da OCDE em 1963, era composta de 57% de produtos primários elaborados e não elaborados e nos anos 2000, essa relação representava apenas 24% (desconsiderando em ambos os casos os combustíveis, devido a sua peculiaridade). Em contraste, as importações de maquinas e equipamentos de transporte mais do que dobraram sua participação relativa, durante esse mesmo período, de 18,4% para 41%.

O mesmo ocorre na dinâmica dos preços relativos entre produtos primários e industrializados, em diversas estáticas mundiais apontam para uma deterioração dos preços relativos dos produtos básicos, em relação aos mais intensivos em tecnologia, quando se observa um longo período de tempo. Utilizando o exemplo do Brasil, de acordo com dados da Funcex em meados de 2003 era necessário 11,52 vezes mais produtos básicos para se trocar pela mesma quantidade de bens industrializados, do que em 1978 (início da série).

Portanto, minha grande preocupação com o pseudo “desenvolvimento econômico” do Brasil, é a transformação em sua base produtiva que esta cada vez mais primária e com pouco desenvolvimento industrial. No entanto, isso só tem sido possível graças às transformações da economia mundial, com fortíssimo papel jogado pela China, que tem alterado a dinâmica de preços no mercado mundial associado com outras mudanças (contudo isto é um trabalho para outro artigo). A grande questão a ser levantada é se esse processo de mudanças de preços relativos se mantem no longo prazo, o que historicamente se mostra o contrário. Acho que uma lição que devemos nos lembrar é o quanto o desenvolvimento tecnológico, sempre empenhou papel fundamental no desenvolvimento econômico. Não caíamos no erro do assessor do presidente Bush citado a seguir:

Durante a campanha presidencial americana de 1992, o principal assessor econômico do Presidente Bush foi questionado sobre o aparente declínio do conteúdo tecnológico das exportações de seu país; ele respondeu que não via nenhuma diferença em exportar batatas chips em vez de micro-chips.”

Este artigo se propõe a ser o primeiro de muitos, que irão analisar algumas questões da mudança mundial e políticas para a conquista de tais transformações.

domingo, 8 de maio de 2011

Brasil Desenvolvimento ou Ilusão

 
Nos últimos anos tem se falado muito que o Brasil tem se desenvolvido economicamente. Será essa uma verdade? Ou será isso uma ilusão. O famoso economista Josep Schumpeter distingui crescimento econômico, de desenvolvimento econômico. O primeiro se refere a uma expansão quantitativa da base produtiva, com pequena ou nenhuma mudança qualitativa, enquanto o segundo se refere a mudanças qualitativas substanciais no sistema produtivo, como a introdução de novas tecnologias, como o caso das tecnologias da informação na década de 90 ou as ferrovias em meados do século XIX, entre tantos outros casos de mudanças substanciais.

Por Thiago Machado
             A problemática levantada nesse artigo é a existência de certo consenso nacional sobre que o Brasil subiu de “patamar econômico”, ou seja, se desenvolveu durante a era Lula. Este consenso é valido, até mesmo para os meios de comunicação, a grande mídia, que pelo menos em teoria, deveriam fazer propaganda negativa sobre o governo. Vale lembrar, que é inegável que nos últimos anos algumas políticas econômicas e sociais foram extremamente favoráveis ao crescimento econômico, como a conexão institucional entre aumento de produtividade e aumento da massa salarial (conquistada pelos sindicatos), políticas sociais como a bolsa família, ampliando o mercado nacional e também temos a forte elevação do credito nacional para o investimento, com papel central do BNDES, entre outros.
            Contudo, apesar de algumas mudanças pontuais, a estrutura da política macroeconômica não foi alterada. A política monetária continua extremamente ortodoxa, com as maiores taxas de juros do mundo, enriquecendo os banqueiros através da dívida pública, onde só para se ter idéia, a receita dos bancos nacionais em 1995 (início da base de dados), era de 8,63% de títulos de renda fixa, ou seja, títulos do governo e em 2007 representava 34,43%. Enquanto o crédito e prestação de serviços representavam em 1995 respectivamente 6,79% e 31,19% de sua receita, e em 2007 era eles eram de 5,73% e 21,67%, uma queda relativa conjunta de 10,58%, contra um crescimento da receita vinda do governo em termos relativos 25,8%. Alem disso, o Brasil não teve reforma fiscal e os impostos se matem extremamente regressivos, penalizando a população mais pobre e desfavorecendo os investimentos. A política cambial continua ortodoxa assim como na era FHC, com o câmbio super valorizado (que é o que realmente tem segurado a inflação, só por consequência destruindo a capacidade industrial).
            Tais questões associadas com as mudanças mundiais têm afetado em muito a estrutura produtiva nacional, a formação bruta de capital fixo FBKF da indústria, chegou a aproximadamente 60% do total para o setor intensivo em recursos naturais enquanto em 2001 ele representava menos de 40% do total. Poderia se afirmar, no entanto, que essa mudança é apenas relativa, mas, por exemplo, os setores mais intensivos em tecnologia tiveram uma queda real de mais três vezes em seu investimento, comparando 2001 com 2007.
            Quando se observa as importações mais exportações da América Latina, de 1987 a 2008, observa-se que quanto maior o conteúdo tecnológico do produto (seguindo padrões da OCDE) maior foi sua taxa de crescimento e esse mesmo fato se repete ao longo da história do capitalismo mundial, como observa Grabriel Palma em “Gansos Voadores e Patos Vulneráveis” (2004). Em contrapartida, quando se observa as exportações brasileiras de 1996 a 2009, as exportações que mais cresceram foram justamente as de menor conteúdo tecnológico, crescendo uma vez e meia a mais que a taxa média de crescimento.
            O mesmo grande erro da política macroeconômica feita no governo FHC tem sido praticado pelo governo Lula/Dilma, só que em contextos históricos diferentes. A China tem mudado a economia mundial; como os termos de troca, que mudaram ao longo da ultima década a favor dons bens básicos em detrimento dos bens industrializados, forte expansão dos produtos básicos e tudo isso tem “favorecido” enormemente o Brasil pelo menos do ponto de vista do equilíbrio externo no curto e médio prazo. Tais condições associada com alguns pequenos sucessos, tem causado essa ilusão de desenvolvimento, enquanto na verdade o que temos é apenas crescimento, que mais cedo ou mais tarde irá mostrar suas limitações com desequilíbrios externos. Já que, cada vez mais se inventam novos produtos e tecnologias, pressionado a demanda nacional, só que, em contrapartida estaremos produzindo produtos que já possuem sua demanda razoavelmente bem atendida recriando nossas sistêmicas crises externas como a de 1998/99. 
           

terça-feira, 29 de março de 2011

Palestra do embaixador da China no Brasil


 
 


Por Thiago Machado dos Santos   

            Após as formalidades requeridas para a apresentação da palestra, com uma breve descrição do desenvolvimento econômico Chinês feito pelos pesquisadores do grupo IBRACH. O embaixador da China no Brasil, Sr. Qiu Xiaoqi descreve o forte aumento na percepção mundial da China como um país “vanguardista” no desenvolvimento mundial, como um duplo pólo, de grandes ofertantes e demandantes de mercadorias impulsionando a economia mundial.
            Durante sua fala pude perceber dois eixos centrais dos atuais desafios chineses: primeiramente transformar sua economia de crescimento extensivo para crescimento intensivo, ou seja, manter as transformações de desenvolvimento tecnológico já em curso, para produtos com maior valor adicionado e transformar as relações trabalhistas junto com a relação produtividade e salário real.
             Quanto ao primeiro ponto, o embaixador ressaltou que as indústrias mais intensivas em trabalho, já vêem passando por algumas dificuldades e por grandes desafios. Esse “problema” favorece a tese do padrão de desenvolvimento dos países do leste asiático, padrão esse denominado de “Gansos Voadores”, com um país líder no desenvolvimento tecnológico que é acompanhado por outros países, que possuem um desenvolvimento relativo mais “atrasado”, e que incorporam novas tecnologias conforme a mesma fica mais obsoleta em relação ao país “líder” e assim sucessivamente de acordo com a “etapa” de desenvolvimento de cada país. 
            Sua preocupação com as características do desenvolvimento econômico, esta intimamente ligada ao segundo aspecto, com aumento do custo unitário da mão de obra a competitividade chinesa via mão de obra barata se desfaz, logo, se faz necessário um aumento da capacidade tecnológica chinesa para aumentar a produtividade média mantendo seu desenvolvimento.
            Essa maior preocupação com o trabalhador na China, já pode ser vista nos dias de hoje, onde pelo menos nas cidades, pode-se afirmar que o aumento da produtividade da mão de obra tem sido repassado para os trabalhadores (vide gráfico 1 abaixo). No período de 2006 ao primeiro trimestre de 2009, o salário real Chinês das cidades cresceu em média 17,1% quando comparado com o mesmo trimestre do ano anterior (de acordo com os dados da NBS).
            As mudanças na relação salarial deflagram uma forte intenção de se voltar cada vez mais para o seu mercado interno, já que, suas exportações dificilmente conseguirão crescer a taxas tão expressivas quanto as dos últimos anos. Alem de mudanças na relação salarial, também está sendo pautadas mudanças nas garantias sócias, como previdência, saúde, seguro desemprego, entre outros, que devem alterar relações institucionais, elevando a demanda interna chinesa, alem de agirem de forma anticíclica na economia.
            Portanto, deduz-se que esses são os dois grandes desafios da política econômica chinesa, mudanças qualitativas em sua base produtiva e aumento do poder aquisitivo da população fortalecendo o mercado interno. 

Relações Internacionais
            De acordo com o Sr. Qiu Xiaoqi, a China manterá sua política externa de “autodeterminação dos povos” reconhecendo a soberania de cada país, ajudando os países, sem intervir em sua política interna.
            Para o Sr. Qiu Xiaoqi, a China esta cada vez mais aberta para o mundo sendo isto uma necessidade da própria China e do mundo, já que, ela é a maior exportadora do mundo e a maior produtora de manufaturas, alem da segunda maior importadora mundial, se mostrando como um duplo pulo mundial, de demandantes e ofertantes de mercadorias. Outro ponto importante é a intervenção da China na África, emprestando mais dinheiro para essa região do que o próprio Banco Mundial alem de investir em sua infra estrutura, como o caso de ao longo da ultima década foram construídas mais de 64 mil quilômetros de estradas por investidores chineses.  
             
Relação comercial entre a China e o Brasil
            Já é conhecido pelo público, que desde abril de 2009 à China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil chegando a um volume comercial de mais de US$ 38 bilhões de dólares, no acumulado em dose meses a preços constantes de 2009 (deflator: IPA Americano). Quando o embaixador foi questionado sobre a relação qualitativa dos produtos trocados entre China e o Brasil (que é francamente desfavorável ao Brasil), ele afirma que os brasileiros não têm com o que se preocupar, já que, o comercio bilateral entre eles é extremamente favorável ao Brasil. Pois, o Brasil teve um superávit comercial de mais de US$ 5 bilhões de dólares em 2010.
            Outro ponto abordado pelo embaixador foi que os investimentos diretos da China vão trazer melhorias para nossa economia possibilitando incremento produtivo e no emprego. Afirmando que tais investimentos só podem trazer benefícios ao Brasil não afetando nossa soberania, pelo contrario, criando condições de ajuda mutua.

Integração Cultural
            De acordo com o embaixador será inaugurado ainda esse ano, o instituto de Confúcio no Brasil, a fim de divulgar a cultura Chinesa. Alem disso, o Sr. Qiu Xiaoqi disse que nos últimos anos o Brasil e a China tem feito um intercambio entre estudantes chineses e brasileiros cada vez mais intenso, e com perspectivas de crescimento nos próximos anos, alem de intercambio entre pesquisadores.  
           
           
Política interna chinesa
            Quanto à política, o embaixador destacou que na China a democracia se organiza de forma distinta da ocidental, onde foi revelado que na China existem mais 11 partidos políticos alem do Partido Comunista Chinês. Ele ressalta ainda, que a nível municipal e estadual já existem eleições diretas, alem de experiências de uma política participativa em diversas cidades chinesas onde a população toma as decisões do orçamento público (Quem tiver maior interesse nesse assunto leia “O que a China Pensa” de Mark Leonard).   

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As Contas do Império: "BRIC e a China e mudanças dos preços relativos e da elasticidade renda da demanda"



Por Thiago Machado

A China vem remodelando o cenário do comercio mundial, como ofertantes de produtos industrializados, extremamente competitivos, e demandando commodities de forma intensa. Essa relação tem alterado a cadeia produtiva mundial, ao gerar pressões competitivas nas indústrias de todo mundo fazendo com que, aquelas que não apresentam um grau de competitividade suficientemente bom, serem diminuídas ou eliminadas. Alem de demandar produtos baseados em recursos naturais. 
Estes fatos decorrem de sua política deliberada de industrialização, desde o final da década de 70, com as reformas introduzidas por Deng Xiao Ping. Desde então, a China tem traçado uma política deliberada de abertura econômica com assimilação tecnológica mexendo na curva de aprendizado da população. Uma estratégia totalmente distinta da adotada pela América Latina de simples liberalização econômica.
Com esse modelo, a China favorece a atração de empresas transnacionais, atrás de sua mão de obra barata, e de seu grande mercado consumidor, praticando join-ventures com empresas nacionais, sendo o papel das empresas multinacionais, muito maior do ponto de vista de melhorar a curva de aprendizado chinesa, do que aumentar a produção ou dependência no sentido do capital financeiro internacional.
Nesse sentido, este artigo se coloca na posição oposta a de muitos economistas, que defendem que a China possui uma forte dependência do capital internacional. Contudo não é isso que ocorre, pois apesar do papel estratégico das empresas multinacionais (devido ao processo de assimilação tecnológica), elas contribuem com apenas 5% da formação bruta de Capital do país e com 30% da produção de manufaturados, dos quais 60% são destinados para o mercado interno.     
            Ao longo de sua trajetória de aprendizado, ela conquistou a participação de 93% de produtos manufaturados nas exportações, enquanto que sua composição para as exportações da América Latina é de 98% de produtos manufaturados, sendo 68% da categoria de alta e média tecnologia e 20% na de baixa tecnologia.
            Essas características trazem fortes implicações para o comercio mundial, na análise de Palma (2004, P. 407), as economias asiáticas passaram por alguns problemas graças ao seu próprio sucesso na década de 90, culminando na crise de 1997. De acordo com (PALMA, 2004), a queda na taxa de lucro das empresas do leste asiático, levou a um aumento dos investimentos, (financiado pela poupança externa, via superávits na conta capital e financeira), a fim de recuperar sua receita. Contudo, alguns dos produtos de maior peso em sua pauta de exportação, particularmente eletrônicos, começaram a sofrer excesso de oferta e preços novamente em queda. Essa tendência competitiva, apesar de apresentar outros elementos se mantém até os dias de hoje, gerando vetores deflacionários nos preços dos bens manufaturados.
            Outra questão importante que reflete o movimento dos preços internacionais é o explosivo crescimento da demanda chinesa por commodities, graças ao seu forte desenvolvimento econômico. A demanda por estes produtos teve um crescimento médio de 45% ao ano de 2000 a 2005, que declina para 18% entre 2005 a 2008 na América latina. Para o Brasil, as exportações de produtos básicos com destino a China cresceram em média, em relação ao primeiro período, 49,75% ao ano e no período de 2006 a 2009 o crescimento foi de 35,73% em média. De 2000 a 2009 as exportações brasileiras para os BRIC, cresceram 12,29 em termos reais[1] (a China responde por mais 80% do total do valor deste comercio), em contrapartida as exportações para o mundo todo, cresceram 2,95 vezes, também em termos reais.
Portanto, a alta competitividade do leste asiático em produtos industrializados, com baixos preços, associado com a forte demanda por bens básicos, expressa a melhora nos termos de troca a partir de meados de 2003 das exportações brasileiras. No entanto, será essa demanda sustentável? Vejamos algumas das características que a fazem demandar tais mercadorias:
A forte demanda chinesa por commodities pode ser atribuída a sua elevada taxa de investimento que chegou em 2006 a 42,8% do PIB, sendo que a construção civil representa 26% do PIB, ou seja, 60,75% do total, se comparar com a composição mundial que é de 55,09% (PUGA; BORÇA; NASCIMENTO; 2009, P. 2) verifica-se que lá é mais elevada, e alem do mais esta em rápida expansão, aumentando a demanda de insumos para a construção civil, elevando ainda mais o preço e a elasticidade da demanda das commodities.
Mas, apesar da China apresentar um robusto crescimento, seu PIB per capita ainda é extremamente baixo, de acordo com o Banco Mundial, seu PIB per capita em paridade de poder de compra de 2008, é de US$ 5.514,6, o do Brasil que ainda esta longe de ser um país desenvolvido, é de US$ 9.517,1, mais de 70% superior ao da China.
Retomando ao conceito de Schumpeter visto no capitulo 1.1, onde fatores dinâmicos em um determinado país podem não ser em outro. O baixo desenvolvimento Chinês possibilita uma expansão do consumo de produtos, que já possuem sua demanda razoavelmente bem atendida, em países mais desenvolvidos. Pois, no seu caso, os bens e serviços que fogem do fluxo circular, são mercadorias com um relativo “atraso” se compara a outros países do mundo. Desta forma, a atual relação que têm sustentado essa dinâmica de preços, e da elasticidade da demanda das commodities, parece ser um tanto quanto improvável futuramente. Pois os dados macroeconômicos, que apontam as tendências de longo prazo dizem que esse tipo de produto apresenta características de inelasticidade da demanda e deterioração dos termos de troca, conforme foi visto no capítulo um, e os dados apresentados um pouco acima, também apontam para um arrefecimento do crescimento das exportações de produtos básicos, apontando para uma mudança na tendência de preços, já que, sua segunda derivada é negativa, ou seja, o seu crescimento é cada vez menor. Portanto é concebível, e levantado a hipótese, de que o fenômeno China, não irá mudar radicalmente a dinâmica de preços, e da elasticidade da demanda de longo prazo dos bens básicos, que tem sido apresentado (pelo menos o primeiro quesito) a mais de um século (desde a análise de Raul Prebisch, 2000).
É importante fazer tal ressalva, já que alguns economistas como (SANTISO, BLAZQUEZ-LIDOY E RODRIGUES, 2006) defendem que os países latino-americanos, podem se tornar menos vulneráveis, do ponto de vista externo, devido ao efeito China. Formando certas perspectivas equivocadas, quanto à orientação da política macroeconômica nacional.


[1] Deflacionado pelo IPC norte americano; Fonte: Bureau of Labor Statisc BLS

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Contas do Império : "Relações comerciais Brasil América do Sul e o processo de primarização das exportações desde o Plano Real"



Por Thiago Machado           


 As alterações no paradigma do crescimento das nações, baseado numa ideologia mais liberalizante e mudanças no paradigma tecnológico, foram acompanhadas por uma maior integração mundial, em termos comerciais e de comunicação. Essa integração impactou e impacta, diretamente a cultura e as características de consumo da população mundial, junto de uma forte integração financeira. Um dos aspectos desse fenômeno é a criação de uma serie de blocos econômicos construindo redes comerciais em diversas regiões, ou blocos econômicos, como o caso da União Européia, do Mercosul, da NAFTA, entre tantos outros.
            Para o caso brasileiro, essas transformações trouxeram alguns impactos para o comercio exterior nacional. A maior integração do mercado sul-americano ampliou fortemente as exportações brasileiras para a região sul americana, onde de 1990 a 1997 as exportações brasileiras para esta região cresceram em termos reais[1], 284,96% em contrapartida, as exportações cresceram em média, nesse mesmo período, apenas 39,88%.
            Esse crescimento das exportações para a América do Sul escondeu uma característica do comercio exterior nacional da década de 90. Como as exportações brasileiras para essa região são marcadas por uma forte composição de produtos manufaturados, isto escondeu o fato, de as exportações estarem sofrendo um processo de primarização, ou especialização regressiva, desde o início da década de 90 e não apenas na primeira década do século XXI, como vêem sendo discutido por diversos economistas atualmente.
A participação das exportações brasileiras de manufaturados, retirando-se a América do Sul em média de 1990 a 1993 era de 52,73%. Contudo, o período de 1994 a 1998, essa relação passa a ser em média de 46,4%, chegando ao ponto de mínimo em 1997, com 43,56%, que passa a melhorar daí em diante até os anos 2000, chegando a 50,89%. Em contrapartida, quando se olha apenas à composição das exportações totais, essa relação é extremamente minimizada. Pois, a média da composição das exportações de bens manufaturados de 1990 a 1993 é de 58,4% e a média de 1994 a 1998 é de 56,75%, ou seja, uma queda relativa de apenas 1,65%, em contrapartida, retirando-se o comércio Sul Americano, a perda relativa dos produtos manufaturados é de 6,33%.   

. A maior competitividade da indústria nacional, em relação ao restante da América do Sul, ocasiona essa “deturpação estatística”. Mas, se comparar com o restante da economia mundial, a mudança no paradigma de desenvolvimento nacional trouxe consigo uma forte perda de competitividade do setor industrial, devido a forte alteração dos preços relativos com a liberalização econômica, iniciada na década de 90. Um outro elemento que auxiliou as exportações brasileiras é o fato do processo de liberalização econômica, com forte valorização cambial, ter sido um fator em comum a todos os países da América Latina, sobre valorizando o câmbio de todos os países da região, não alterando de forma tão drástica a competitividade da indústria nacional frente às demais indústrias da região. 
Contudo, apesar da forte demanda desses países por produtos manufaturados brasileiros, o mercado Sul Americano ainda possui grande potencialidade de crescimento do comercio intra-regional, caso seja feita uma estratégia bem sucedida de integração regional e desenvolvimento industrial. Pois, se comparar a participação do comercio intra-regional de outras regiões, que representam, em relação ao seu comercio exterior total, as seguintes percentagens: 68% na Ásia, 60% na União Européia e 55% na Nafta, o Mercosul e a América do Sul, possuem respectivamente apenas 25% e 10%, de acordo com dados de para o ano de 2000.
América do Sul tem um grande problema, que são as grandes semelhanças em sua produção, impedindo maior nível de integração. Isso influencia na reduzida demanda de produtos regionais por parte do Brasil, que possui uma indústria mais desenvolvida e diversificada. Competindo em diversos nichos com as indústrias da região, gerando problemas para as demais economias locais, já que, o Brasil constantemente apresenta superávits na Balança Comercial regional.
Consequentemente, o processo de primarização das exportações não é um fenômeno apenas do século XXI, devido ao crescente centro gravitacional da economia mundial, o Leste asiático, com pólo na China, mas um fenômeno que tem ocorrido desde o processo de liberalização econômica, com destaque para ruptura do Plano Real. Conforme foi defendido anteriormente, apesar da forte mudança dos preços relativos dos bens comercializáveis, nossa indústria se viu numa relação razoavelmente estável, em relação ao comercio sul-americano, já que, a região como um todo passou por um forte processo de liberalização econômica, com forte apreciação cambial.
Poderia se criticar tal visão, afirmando que mesmo que os países sul-americanos tenham tido em comum uma forte valorização cambial, os mesmos poderiam ter sua demanda atendida por produtos manufaturados, pelo restante do mundo. Toda via, a integração regional foi acompanha por certo nivelamento das tarifas alfandegárias da região, alem de maiores facilidades legais facilitando seu comercio, “em detrimento” ao resto do mundo.




[1] Deflacionado pelo IPC norte americano; fonte: Bureau of Labor Statisc BLS

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As contas do Império: Liberalização Econômica e Estabilidade Externa do Brasil: Será Possível?

 

Estreamos hoje a coluna de economia de Thiago Machado dos Santos. Responsável pelo funcionamento total do navio, Thiago junta-se ao motim a fim de cobrar a prestação de contas do navio. Sinal Preto!








Câmbio e Fluxo de Capital Internacional do Plano Real os dias de hoje

“O dinheiro leva sempre junto a si a possibilidade de crise” (Marx)

A liberalização econômica foi um fenômeno mundial, marcada pela: perda de poder da classe trabalhadora, por alterações na geopolítica mundial, mudança na relação monetária internacional e forte integração via meios de comunicação, em níveis jamais vistos. Tais tendências apontavam para a maior desregulamentação e integração financeira, possibilitando um novo arranjo internacional, onde “investidores” ou “especuladores”, dependendo da especificidade do capital poderiam ampliar seu dinheiro em qualquer região do mundo, sem a necessidade desse dinheiro representar melhora na qualidade de vida da população.
Graças à doutrina política que o Brasil adotou, seguindo a tendência mundial, a Conta Capital e Financeira passou a ser cada vez mais significativa na composição do Balanço de Pagamentos (BP), pois a manutenção do câmbio fixo e valorizado (a fim de controlar a inflação) dependia do grande fluxo de capital internacional, e das reservas internacionais que foram acumuladas no período anterior. Todavia, o câmbio sobre-valorizado aumentava o déficit em Conta Corrente, que se deteriorava cada vez mais, e com o aumento do déficit, o país se via ainda mais dependente do capital internacional, ou seja, esta lógica gerava um processo cíclico e cumulativo de dependência, que só poderia resultar numa crise de solvência com o capital internacional.
O Plano Real tinha sido lançado em junho de 1994 com US$ 43 bilhões de reservas internacionais, que, já em dezembro tinham caído para US$ 39 bilhões e em abril de 1995 as reservas já estavam em US$ 32 bilhões, até começar a se recuperar em função da ação oficial (GIAMBIAGI, 2005, P. 168), de elevar o juro real e a diminuição da expectativa de risco gerada pela crise do México em 1994. Esses elementos podem mostrar desde já, as limitações desse modelo macroeconômico e suas contradições quanto às condições econômicas externas e internas. 
A crescente dependência pode ser avaliada pela participação dos principais componentes no fechamento do saldo do Balanço de Pagamentos (BP), que tinha boa parte de seu saldo composto por investimento em carteira (títulos de renda fixa e ações), que representou, na média do período de janeiro de 1996 a agosto de 1998, (antes do início da crise) o equivalente a 235,34% do Saldo no Balanço de Pagamentos, sendo que, dentro deste componente, a participação de títulos de renda fixa (títulos que são remunerados de forma fixa atrelados a uma taxa de juros) era mais significativa, representando 181,76%. O investimento em ações representava 53,58%, em contrapartida, o investimento direto (compras de empresas nacionais e/ou abertura de novas multinacionais) representou apenas 74,25% do saldo, sendo o mesmo mais salutar que o investimento em carteira, só para se ter uma idéia, a participação da Conta Corrente (que de forma resumida, avalia a economia real) era de -130,48% do saldo da BP.
Essa super-dependência do investimento em carteira, denominado por muitos economistas como “Hot Money”, devido ao seu caráter especulativo e de curto prazo, se deflagrou na crise de 1998, com a reversão das expectativas dos agentes econômicos quanto à “realidade” do câmbio brasileiro, deflagrando um período de recessão econômica, com forte elevação do desemprego.
            A crise de 1998 inaugura um processo de desvalorização cambial que vai de 1998 a 2003, nesse movimento, o câmbio real do Brasil em relação ao dólar (deflacionado pelo índice de preços ao consumidor, IPC de cada país), saiu de 1,72 em dezembro de 1998, para 4,67 em setembro de 2002, uma desvalorização de 271,51% (estando, em setembro de 2009 a 1,67).
            Esta desvalorização possibilitou uma melhora na rentabilidade do setor exportador, alem de ter elevado o custo das importações, favorecendo a produção local e do setor exportador (contudo, deve-se lembrar que existe um tempo necessário, para a adaptação dos novos preços relativos e com isso da nova produção e expansão da mesma).
            A desvalorização cambial é revertida em 2003, e inaugura um novo processo de valorização cambial, que se mantêm até os dias de hoje. Esse processo pode ser dividido por três elementos centrais: 1) primeiramente um processo natural de revalorização, dadas às condições econômicas brasileiras; 2) “efeito China” (que será aprofundado num próximo artigo); 3) Mudança de percepção do “investidor” internacional quanto à realidade econômica do Brasil, principalmente a partir de 2007.
            Tratando brevemente do segundo ponto, o Brasil passou a apresentar crescimentos excepcionais das exportações para os BRIC, que de 2000 a 2009 teve um crescimento real das exportações, de mais de 12 vezes, enquanto as exportações cresceram 2,9 vezes no total, desta forma teve-se uma expressiva melhora no saldo da Balança Comercial e, por conseguinte da Conta Corrente, associado a isto, a China mudou a dinâmica de preços internacionais, favorecendo, pelo menos na última década, as commodities, que historicamente apresentam uma tendência de deterioração dos preços relativos em relação aos produtos industrializados.
            A criação de um novo centro gravitacional da economia mundial, e o câmbio desvalorizado (apesar de estar em processo de valorização) possibilitou que o Brasil apresentasse Saldo positivo em Conta Corrente, que chegou a quase 2% do PIB, ante ao histórico deficitário deste componente. Com isso, o Brasil pode reduzir sua dívida externa, se tornando posteriormente credor internacional em 2007. A mudança de posição da solvência externa brasileira, trouxe uma torrente de capital internacional, que inaugura um novo elemento da valorização cambial brasileira, mais relevante que o fator China no cenário atual.
            De acordo com Garcia e Dieder, o principal componente na avaliação de risco do “investidor internacional” é a relação dívida externa PIB, que melhorou sensivelmente graças ao efeito China e o câmbio mais desvalorizado, do período de 1999 a 2007.
            Em estudo que estou realizando, a forte entrada de capitais no Brasil, coincide com a mudança da dívida externa, passando a apresentar estrondosos superávits na Conta Capital e Financeira (vide gráfico abaixo):   
Olhando em retrospectiva, a Conta Capital e Financeira apresenta dois momentos com forte participação do investimento em carteira (Gráfico abaixo), pós o Plano Real até a crise em 1999, e de 2007 até os dias atuais. Contudo, justamente esse tipo de “investimento” que é considerado o “hot money”, ou seja, capital especulativo de curto prazo, a fim de encontrar o maior nível de rentabilidade possível, sem nenhuma ou muito pouca contribuição real para a economia.
Em contrapartida a composição da Conta Capital e Financeira, no período de 1999 até o início de 2004, o investimento direto era dominante, sendo o mesmo, um capital com características de trazer retornos reais para a economia, alem permanecer no país um período mais longo de tempo. Apesar da redução de seu peso relativo em 2005 pode-se dizer que até o início de 2007, ele ainda era bem mais significativo do que no período posterior.

Conclusão
O câmbio valorizado dificulta as exportações e a produção interna, dificultando o desenvolvimento da economia real, agravando o equilíbrio externo. O primeiro gráfico demonstra que o Brasil apresentou superávits em Conta Corrente de 2003 a 2007, passando a apresentar déficits daí em diante, mudando de trajetória durante a crise americana de 2008, que acabou favorecendo o Brasil (pelo menos do ponto de vista externo), e retomando sua trajetória posteriormente, chegando a agosto de 2010, num déficit de -2,32% do PIB num crescimento espantoso.  

            O Brasil tem tentado adotar algumas políticas que ajudem no controle da valorização cambial, adotando o IOF sobre movimento de capitais em carteira de 2% em 2007, o que ajudou muito pouco no fluxo de capitais internacional (apesar de ter afetado mais o “investimento” em títulos de renda fixa). Atualmente o ministério da fazenda aumentou o IOF para 4% e logo depois para 6%, apenas para “investimentos” estrangeiros em títulos de renda fixa. Entretanto, atualmente, ao contrario do que ocorreu pós-plano real até a crise de 1998, o principal componente do “Hot Money” é o “investimento” em ações, o que torna tais medidas um tanto quanto inócuas. 
Olhando as constas externas, pode se afirmar, que o Brasil ao longo desses 20 anos tem vivido sobre a égide do liberalismo, apesar do governo Lula ter trabalhado na melhora de alguns aspectos da economia, a favor da população mais pobre, entretanto, ele não mexeu na estrutura de acumulação de capital brasileira, nem sequer em termos desenvolvimentistas, num sentido mais efetivo da palavra.
            É importante se ter em mente que a economia caminha como a dialética, dentro de movimentos contraditórios e cumulativos, o fato de o Brasil ter hoje em dia, reservas internacionais de quase US$ 300 bilhões, não diz que o Brasil esta livre de uma crise em Conta Corrente, o mais importante é se verificar a lógica de acumulação e não apenas um ponto num dado instante, vale lembrar a experiência da Indonésia durante a crise asiática de 1997, que possuía reservas internacionais substancias, mas tais reservas não foram suficientes para conter a crise.
            Tais contradições, por mais que não se manifestem na realidade cotidiana da população brasileira, irá se romper, caso lógica de acumulação do capital não mude. Por exemplo, durante o governo FHC, a população se viu maravilhada com o Plano Real e o “aumento de renda” gerada pelo mesmo, contudo tal ilusão se deflagrou na Crise de 1998.
            O Brasil teve a sorte na mudança do cenário internacional, contudo, esses elementos têm gerado uma serie de contradições na economia nacional, que aos olhos da grande maioria da população, se passa despercebida, esse artigo se propõem a fazer uma crítica construtiva da política atual, a fim de acordar quanto ao norte da política a ser adotada.
Na passagem de Heráclito: “Os homens não compreendem como é possível como algo que se transforma incessantemente, possa, no entanto, permanecer coerente consigo mesmo. Há uma harmonia das tensões opostas, tal como o arco e a lira.” Mas, tais contradições mais cedo ou mais tarde se deflagram em uma crise, gerando novas possibilidades para uma síntese, seja ela benéfica ou não.