Sinal Preto: João, como foi a sua vinda ao Brasil? Quais foram as suas motivações para estudar no Rio de Janeiro e que tipo de dificuldades você teve, se as teve, para estudar aqui?
João Bernardo: Para começar digo obrigado pela oportunidade da sua entrevista. A minha vinda para o Brasil enquadra-se no acordo cultural entre a Guiné-Bissau e o Brasil.
Senti-me motivado para estudar no Rio de Janeiro visto que a UFRJ é uma instituição de ensino superior de ótimas qualidades e de um prestígio internacional reconhecido e a cidade é muito maravilhosa. Com relação as dificuldades que eu tive, em primeiro lugar cheguei num país novo e cultura diferente, métodos de ensino diferentes, o individualismo, a concorrência desleal que me leva muita das vezes a navegar nas águas das saudades da casa.
Sinal Preto: Como é sua vida aqui no Brasil?São muitos os bissauenses no Rio de Janeiro? E a convivência com os brasileiros? Fez muitos amigos por aqui? O que lhe pareceu “exótico” e o que lhe pareceu “familiar” nas terras tupiniquins?
João Bernardo: A minha vida aqui no Brasil resume-se só aos estudos. “Casa- faculdade, faculdade- casa” e um pouco da minha interação com amigos guineenses e cariocas. Tem muitos guineenses estudando em diferentes universidades aqui no Estado do Rio de Janeiro. A minha convivência com os brasileiros é muito cordial, sobretudo com os amigos mais chegados. O que me pareceu familiar é a cultura afro-brasileira como a música do samba, o carnaval etc.
Sinal Preto: As grandes elites brasileiras costumam se orgulhar da nossa “miscigenação”, no entanto sabemos que isso se fez através da dominação econômica e cultural das camadas populares, da escravidão de africanos, do genocídio dos indígenas, etc. Como isso é na Guiné Bissau? Você se reconhece em alguma etnia? Quais são as etnias presentes na Guiné? Existem conflitos?
João Bernardo: Felizmente na Guiné-Bissau isso não se faz sentir, do escravidão e do genocídio, reconheço-me da minha etnia que é a “Papel” e existe muitas outras etnias no universo de 20-30, o que ajudou no enriquecimento da nossa cultura. Nunca existiu conflito pois todas as etnias vivem num ambiente harmonioso.
SP: O surgimento dos Estados Nacionais na África se deu pelo episódio conhecido como a “Partilha da África” pelas potências imperialistas européias. Costuma se atribuir boa parte dos conflitos no continente a isso. No entanto, boa parte dos movimentos de libertação era também nacionalista, sobretudo os que tiveram sucesso. Como você vê essa questão? O nacionalismo na África é ruim para a preservação das diferentes culturas?
JB: Com o enfraquecimento das Metrópoles européias, desenvolveu-se na África um nacionalismo caracterizado pelo anti-imperialismo e pela busca de soberania política e econômica. Esse nacionalismo viria a ser a base dos processos de independência do período: somente entre 1950 e 1980 surgiram mais de 45 novas nações na África. Esse fato, entretanto, não trouxe paz para o continente, pois as fronteiras impostas pelos europeus, raramente modificadas com as independências, contribuíam para a eclosão de conflitos no continente, a maior parte deles relacionados a diferenças étnicas.
Com as independências, muitos dos novos Estados tentaram manter sua coesão
territorial por meio da federalização, onde cada etnia pudesse estar representada no
governo central.
SP: Muitos destes processos de independência foram apoiados pela URSS e pela China. O que você acha do socialismo?
João Bernardo: As experiências mais representativas de implantação do socialismo no continente africano ocorreram nas antigas colônias portuguesas . Quando se libertaram, em 1975, optaram pelo rompimento com o antigo modelo colonial de orientação capitalista.
SP: Como foi este processo na Guiné?
JB: Após a conquista da independência política em 1974 a Guiné-Bissau optou por um modelo de desenvolvimento profundamente inspirado no modelo socialista, embora o PAIGC, partido que conduziu vitoriosamente a luta de libertação nacional contra o colonialismo português, nunca tivesse inscrito no seu Programa, como fizeram os seus "companheiros" de luta de Angola e Moçambique, a construção do socialismo científico como uma meta a atingir.
Esta opção tinha sido motivada essencialmente por duas razões. Por um lado a ajuda recebida dos países socialistas e particularmente da então União soviética tinha que ser de alguma forma reconhecida, ao mesmo tempo que se deviam criar as condições internas para que, através de um relacionamento econômico de "novo tipo", se pudessem preservar os "aliados naturais". Por outro lado, tinha-se constatado que os países que tinham ensaiado um modelo de desenvolvimento de tipo liberal viram as suas estratégias fracassadas.
SP: O fim da URSS influenciou os processos de luta por independência na África?
JB: Influenciou sim, pois a URSS ajudava na formação dos quadros e assim como no financiamento dos materiais bélicos para expulsar os colonos.
SP: Sobre o recente processo político que vive o Egito. O que ele representa no contexto político do continente africano?
JB: A revolução do povo egípcio, mostra que a nova era da democracia já não permite os regimes despóticos em África, outrossim, visa a politização da massa egipciana.
SP: Por fim, quais são suas expectativas para o futuro? Pretende voltar à Guiné Bissau? Foi proveitosa a estadia no Brasil?
JB: O meu reconhecimento por todo saber e experiência partilhada e principalmente pela atenção e delicadeza que sempre almejo para um futuro promissor.
Também sou grato, a todo corpo docente do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), razão pela qual comprometo-me a ser multiplicador dos valores e princípios éticos e morais desta magna instituição do ensino superior no mundo afora. Pretendo voltar sim, para o meu país Guiné-Bissau, e a experiência vivida no Brasil foi fantástica onde pude aproveitar o que é de melhor. Aos meus honrados mestres, verdadeiros colaboradores desta conquista, amigos das horas incertas, o meu reconhecimento por todo saber e experiência partilhada e principalmente pela atenção e delicadeza que sempre me proporcionaram.
